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Ediyporn

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Revolta social, revolta estética: insurgências pornográficas e o pornô desviante

Jeffe Grochovski

Resumo: O artigo faz uma breve contextualização histórica de movimentos artísticos que se relacionam com a pornografia enquanto modo de produção. Ele apresenta um panorama do hemisfério norte e contextualiza a realidade brasileira nesse campo, passando pelos movimentos contraculturais dos anos 1980 até os dias atuais – com ênfase no coletivo EdiyPorn: Pornô Desviante, uma produtora pornográfica criada em São Paulo em 2019. O olhar se deteve nos movimentos que utilizam a pornografia enquanto expressão transgressora dos padrões estéticos da cis-hétero norma. Para isso, refletiu-se sobre os primeiros anos do chamado movimento pornô desviante –termo que o artigo bordeia–e sua relação com a micro e macropolítica, os movimentos sociais e as revoltas estéticas. Ele analisa especialmente a repercussão da performance Golden Shower (2019), realizada durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, sugerindo a enunciação da pornografia enquanto narrativa insurgente e afirmando seu papel social e estético.

Palavras-chave: pornografia; pós-pornô; pornô desviante; ediyporn; golden shower.

SOCIAL REVOLT, AESTHETICS REVOLT:PORNOGRAPHIC INSURGENCIES AND DEVIANT PORN

Abstract: This article presents a brief historical contextualization of artistic movements that engage with pornography as a mode of production. It outlines a Global North panorama and contextualizes the Brazilian reality, tracing the trajectory of countercultural movements from the 1980s to the present – focusing on the work of EdiyPorn: Pornô Desviante (EdiyPorn: Deviant Porn) collective, a pornographic production company founded in São Paulo in 2019. The analysis focuses on movements that mobilize pornography as a transgressive expression challenging the aesthetic norms of cis-heteronormativity. To this end, the article engages with the early stages of what has been referred to as the deviant porn movement — a term it critically explores — and examines its intersections with micropolitics and macropolitics, social movements and aesthetic insurrections. The article specifically analyzes the public and political impact of the Golden Shower (2019) performance, which took place during Jair Bolsonaro former presidency, proposing pornography as an insurgent narrative form with both social and aesthetic significance.

Keywords: pornography; post-porn; deviant porn; ediyporn; goldens hower.

1.Movimento Norte

Por insatisfação com as condições da indústria pornô, na qual trabalhava como atriz, a trabalhadora sexual e artista Annie Sprinkle inicia o movimento pós-pornô em 1990, nos Estados Unidos, ao se insurgir contra os modos dominantes e o machismo da indústria pornográfica (Preciado, 2018, p. 288). Sprinkle realiza a performance Post-Post Porn Modernist: Public Cervix Announcement (Figura 1) em uma casa noturna vestindo lingerie e salto alto, inclinada sobre uma cadeira. A artista abriu as pernas e inseriu um espéculo na vagina, convidando os espectadores a conhecê-la internamente. Com essa ação, Sprinkle realiza uma crítica à representação subalternizada do corpo e do sexo, contrapondo a medicina e indústria pornográfica. Na performance, a artista fricciona sexualidade, arte e política. Ao abrir as pernas, Sprinkle abre as portas para o movimento que conhecemos enquanto pós-pornô.

Figura 1–AnnieSprinkle -Post-PostPornModernist:PublicCervixAnnouncement


Fonte: anniesprinkle.org

 

Tempos depois, nos anos 2000, a Espanha se tornou um território inventivo para a produção pós-pornográfica. Inspirado no trabalho de Sprinkle e com o aporte dos estudos de gênero e sexualidade produzidos pela teoria queer, o filme Mi sexualidad es una creación artística (2011) apresenta um panorama artístico-político das produções pós-pornográficas efervescentes em território espanhol durante os anos 2000. O documentário, dirigido por Lucía Egaña Rojas, conta com entrevistas e intervenções de artistas-ativistas como María Llopis, Diana J. Torres, Itziar Ziga, La quimera rosa, PostOp, entre outrxs(1) .
O filme, do início dos anos 2010, apresenta uma cartografia das produções dos anos 2000, movidas pelo desejo de mexer nas estruturas e na manutenção da indústria pornográfica sobre os corpos, subjetividades, e condutas sociais-sexuais. Se a pornografia é feita para o consumo privado, o pós-pornô acontece com frequência em espaços públicos, tensionando a micro e macropolítica através de intervenções em espaços ditos “não convencionais”, com o intuito de penetrar e de ampliar imaginários de quem os acessa. O pós-pornô é influenciado por movimentos sociais de estética contracultural, como o movimento queer, kuir(2) e punk – com seu slogan DIY (“do it yourself” / “faça você
mesmo”) –, É uma máxima nesses estilos de vida e produções. Essxs artistas e coletivos produziram desdobramentos em diversas linguagens e campos do conhecimento – como na arte, filosofia, sociologia literatura, além de atraírem os holofotes midiáticos e provocarem polêmicas em grupos de direita e esquerda inquietados pela temática abordada pelxs artistas e trabalhadores sexuais.

O evento autogestivo Muestra Marrana – voltado para o fomento da produção e difusão de expressões de performatividades sexuais e de gênero subversivas – foi um importante disparador do movimento pós-pornô na Europa e no mundo. A mostra abriu espaço para o fortalecimento de redes dissidentes e desobedientes às normas sociais e pornográficas. Importa destacar também que um importante interlocutor entre o movimento pós-pornô e a esfera institucional é o filósofo Paul B. Preciado, que além de se dedicar a arrastar os debates para universidades e museus, ficou conhecido pelo seu Manifesto Coontrassexual(3). Trata-se de uma obra sobre experimentações sexo-políticas no campo que ele define como contrassexualidade. O manifesto é uma pesquisa-manual de modos de experimentação do corpo e da sexualidade, em que a consensualidade é um acordo comum entre quem a pratica. Torcendo assim as convenções normativas do uso do corpo e dos prazeres através de experimentações criativas que buscam ir além de condutas sexuais pré-estabelecidas.

 

Figura 2–Imagem Manifesto Contrassexual (Preciado,2014)
Fonte: PRECIADO, P. B. O que é a contrassexualidade?. Territórios de Filosofia, 5 mai. 2015.

 

Preciado nos convida a pensar o corpo inteiro como erógeno (Figura 2), deslocando o pênis da função sexual penetrativa, o autor tensiona o que se entende por prática sexual, prazer, uso do corpo e expressão artística. Ele nos apresenta práticas contrassexuais para propor outros modos de experimentações corporais, para além dos modos instituídos, isto é, modos programados na normatividade e reproduzidos na pornografia.

 

2.Movimento Sul

 

Para pensar e produzir outras expressões de sexualidade,
é necessário vivenciá-las de outras formas.
Jeffe Grochovski, 2025

 

Há décadas, temos exemplos no Brasil de produções insurgentes que friccionam o limite entre a sexualidade, a arte e a política. Antecessores ao considerado início do pós-pornô, o coletivo MAP (MovimentodeArtePornô,1982-1984) provocou intervenções em espaços públicos. Elas eram acionadas pelo agrupamento de corpos desnudos performando pornô-poemas – as ações aconteceram em ruas, praias e praças do Rio de Janeiro durante a ditadura militar (Figura 3).

 

Figura 3 – Movimento de Arte Pornô (Performance Intervenção, Praia de Ipanema, 1982)
Fonte: KAC, E. Movimento de Arte Pornô (Performance Intervenção, Praia de Ipanema, 1982) DVD da performance 4’43’’, preto & branco, som, vídeo. Tropicuir,2024.

 

Outro movimento que também penetrou a censura imposta pela ditadura no país foi a pornochanchada; suas produções se concentravam na região da Boca do Lixo, no centro de São Paulo (um importante polo de produções desviantes). Ele foi influenciado pela ascensão de produções pornográficas, pela chanchada, pelo cinema marginal, instaurando assim um novo movimento cinematográfico – responsável pela relevância da produção e distribuição cinematográfica brasileira nas décadas de 1970 e 1980. O início desta última foi marcado pela ampla difusão da imagem de mulheres trans e travestis pela mídia. Nos anos 1980, Roberta Close recebeu o apelido de “furacão midiático”, devido à atenção que atraía por onde passava. Em1984, Close estreia em um histórico ensaio sensual da revista Playboy (Figura 4), instigando a sociedade e a indústria midiática da época. Close foi a primeira mulher trans a sair na capa da Playboy.

 

Figura 4–Roberta Close (ensaio Revista Playboy)
Fonte: Acervo pessoal.

 

Na década de 1980, “uma verdadeira explosão de filmes de sexo explícito com personagens travestis em seus enredos ganha espaço nos cinemas que povoavam a região central de São Paulo” (Santos, 2019, p. 31). Esta se deu com a estreia do filme O sexo dos anormais (1984) estrelado pela artista Cláudia Wonder, também conhecida na noite paulistana, especialmente por suas performances transgressoras. O filme marca o início de personagens trans e/ou travestis no cenário pornô-cinematográfico brasileiro. Trago este recorte entre outras expressões insurgentes que transgrediram paradigmas de performance, gênero e sexualidade no cenário artístico brasileiro. A presença de mulheres trans e travestis proporcionou um movimento de atravessamento das barreiras normativas de gênero na indústria cultural, em sintonia com emergências sociais do momento político. É importante que seja mencionada a presença dessas expressões dissidentes para demarcar a relevância dessas produções brasileiras, muitas vezes desconhecidas, pouco referenciadas e historicamente estigmatizadas. Pêdra Costa e Fernanda Nogueira (2014) apontam:

 

Por que temos muito mais informação sobre as ditas “subculturas” daquele velho primeiro mundo, do que daquelas histórias que aconteceram e estão acontecendo ao nosso lado, em nós? Por que nossas ficções subversivas e realidades liberadoras são invisíveis? O que essa invisibilidade nos diz hoje? A quem interessa tudo isso? E o que essas práticas e narrativas subalternizadas incendiárias podem provocar? Sabemos que o projeto colonial trabalha com o esquecimento, por isso a questão da memória é fundamental nas questões pós-coloniais. Reviver, refazer e recriar a memória é uma resistência! (Costa; Nogueira, 2014).

 

No ensaio Da pornochanchada ao Pós-Pornô-Terrorismo no Brasil (2014), Pêdra Costa e Fernanda Nogueira anunciam as origens e o porvir das produções contraculturais sexo-gênero dissidentes no país. As autoras mapeiam essas intervenções até o início dos anos 2010, situando movimentos estético-políticos de produção dissidente – movimentos marcados pela contraconduta aos modos dominantes da pornografia e da arte.Em 2013, tivemos um levante popular conhecido por Jornadas de Junho. Foi um período marcado por intensos protestos em todo o Brasil. O motivo que desencadeou a revolta foi o aumento do valor da passagem no transporte coletivo, que logo abriu espaço para demais reivindicações. Este período foi marcado por manifestações e ocupações de espaços públicos e privados no território brasileiro por camadas diversas da sociedade – mexendo com as estruturas político-sociais até então instituídas. Em meio às manifestações, foi-se abrindo espaço para que novos coletivos e expressões artísticas surgissem.

 

No dia 27 de julho de 2013, manifestantes se reuniram na orla de Copacabana em um ato feminista intitulado Marcha das Vadias. Elas protestaram pela legalização do aborto e contra a violência patriarcal: sexual e de gênero; protestaram pelos direitos e pela liberdade das mulheres. O ato aconteceu no mesmo dia, horário e região em que ocorreu a Jornada Mundial da Juventude – uma manifestação católica em homenagem ao Papa Francisco, que estava em visita no Brasil.
Durante o ato feminista, cercadxs por um cordão de manifestantes, uma dupla de artistas, integrantes do coletivo Coiote(4), realizou uma ação pós-pornô-terrorista(5) na manifestação (Figura 5). As artistas protestaram contra a violência colonial-patriarcal – historicamente reforçada pela igreja – através da expressão de seus corpos e sexualidade em espaço público. Raíssa Vitral e Gilda se masturbaram e penetraram uma à outra com imagens de santas católicas e crucifixos. As artistas utilizaram esses objetos religiosos em combate às violências históricas cometidas por representantes da igreja. Embaladas pelo coro do movimento Anarcofunk(6), protegidas por manifestantes, as artistas concluíram a ação com a quebra das imagens religiosas, arremessadas contra o chão.

 

Figura 5– Coletivo Coiote – Marcha das Vadias (2013)
Fonte: ALZUGARAY, P. Teatro da crueldade. Celeste, 8 jan. 2019.

 

Com a alta repercussão da ação, o coletivo Coiote, até então conhecido na subcultura kuir, recebeu visibilidade internacional pela radicalidade de sua intervenção pornográfica. A polêmica foi intensificada pela utilização de símbolos católicos, utilizados durante a proposição. As integrantes do coletivo se tornaram alvo de exposição midiática e consequentemente de ameaças e perseguição, devido à radicalidade da expressão da denúncia e à crítica direta à violência patriarcal, naturalizada em nossa sociedade, que tantas vezes prefere culpabilizar as vítimas pela violência sofrida do que seus agressores. Normalizando essas violências em nossa sociedade.
Junto às manifestações populares, as intervenções artísticas seguiram intensamente após junho de 2013. Em 2014, mais de duas décadas após a performance insurgente de Annie Sprinkle, outra intervenção do coletivo Coiote causou grande repercussão. Dessa vez, a ação foi intitulada Xereca Satânik (Figura 6) e foi acionada durante o Seminário de Investigação & Criação: Corpo e Resistência, na Universidade Federal Fluminense, no Campus Rio das Ostras. Na performance, RaíssaVitral faz uma denúncia ao alto índice de casos de estupros ocorridos na cidade – e naturalizados pelas instituições governamentais, que pouco ou nada fazem, em combate a esse tipo de violência. Durante a ação, a artista insere uma bandeira do Brasil em sua vagina que é costurada, por uma parceira. Vitral rompe a costura de sua vagina e arranca a bandeira do Brasil manchada de sangue. Com esta ação, a artista subverte, transtornando o lugar da vítima de violência. A performance é uma denúncia à naturalização da sociedade frente aos crimes de estupro.

 

Figura 6 – Coletivo Coiote – Xereca Satanik (2013)

Fonte: Acervo pessoal.

 

A ação pós-pornô-terrorista do coletivo Coiote mais uma vez toma proporção midiática internacional. Nesse caso, o seminário acadêmico, cujo título anuncia Corpo e Resistência, foi propagado por diversas mídias como “festa satânica na universidade”(7). Iniciaram-se perseguições contra professores responsáveis pelo evento e principalmente contra a artista que protagonizou a performance-denúncia. Pela manutenção da estrutura colonial-patriarcal, nada foi feito contra os crescentes e normalizados casos de estupros na cidade, tão pouco contra os estupradores – tanto pela mídia hegemônica, quanto pelas instituições de segurança pública, intensificando assim os estigmas acerca dessas violências. Esse cenário se reflete por todo país quando se trata desse tema, estrutural em nossa sociedade: a manutenção e propagação do machismo.

 

3. Golden shower e o pornô desviante: da micro à macropolítica

 

“Desviante” significa alguém ou algo que se afasta da norma, do padrão, ou do curso normal. Pode referir-se a comportamentos, ações ou até mesmo pensamentos que divergem do que é considerado aceitável ou esperado.
Inteligência Artificial, 2025

 

No Brasil, o início de2019 foi marcado pela posse do então presidente eleito Jair Bolsonaro, liderança na ascensão da onda neoconservadora militar-evangélica que vem tomando espaço no país desde sua vitória nas urnas. Esse mesmo ano, também marca a criação da EdiyPorn – Pornô Desviante(8), uma produtora pornô gerida pelo coletivo que faço parte. A EdiyPorn vem acionando um movimento ético-estético-político que desvia dos modos dominantes de produção e de consumo da pornografia –inspirando-se principalmente nos movimentos pós-pornô, queer e kuir.
No início da formação do coletivo por trás da EdiyPorn, nos dedicamos a experimentações sociais e estéticas, utilizando para isso nossa bagagem multidisciplinar, em busca de friccionar a pornografia – além de pensar-fazer os primeiros filmes e demais articulações necessárias para se criar uma produtora audiovisual. Entre as ações iniciais, nos dedicamos à realização de proposições performativas(9), que nomeamos de Pornoshows: uma prática de intervenção pornográfica, que parte da relação entre os corpos e os espaços através da contrassexualidade. Essa prática performativa vem sendo desenvolvida desde 2018 e tem entre seus objetivos hackear(10) o imaginário sexual de quem é acessado por cada ação – movimentando assim imaginários sexuais tantas vezes subdesenvolvidos pela normatividade. Estes acontecem a partir do contato com a proposição performativa, às vezes sem aviso prévio.

 

Contagiadxs pela potência da reverberação dessas primeiras ações que se deram em festas e espaços públicos de São Paulo, seguimos investindo e investigando a prática explícita. No dia 4 de abril, durante o carnaval de 2019, uma dessas performances, executada em uma esfera micropolítica, se chocou com a macropolítica após a viralização de um registro do carnaval de rua de São Paulo. Nessa proposição, junto a Paulx Bixa Putx (parceria inicial na criação da EdiyPorn), acionamos uma performance que ficou conhecida por golden shower. Trata-se de uma dança sensual, seguida por um banho de urina nos cabelos de Bixa Putx. Essa ação ocorreu sobre o telhado de um ponto de táxi, durante a saída do Blocú(11), enquanto a cantora Jup do Bairro comandava a festa. A performance explícita capturou a atenção do público, surpreendido pela intervenção, que rapidamente foi ao delírio ao ver o banho de urina escorrendo pelos cabelos de BixaPutx – que, molhada, seguiu em uma dança sensual, batendo cabelo (literalmente) ao som de Jup do Bairro. Sobre o telhado do ponto de táxi, a ação não durou mais do que poucos minutos e seguiu acontecendo em meio à folia, até o fim do bloco.
No dia seguinte, o último do carnaval de 2019, fomos surpeendidxs ao descobrir que um registro da performance estava sendo compartilhado no Twitter com certo alcance midiático. No início, nos divertimos com a notícia da viralização em uma rede social comumente utilizada para veiculação de imagens explícitas. Algumas horas depois chegaram as primeiras mensagens e ligações de amigxs anunciando que o então presidente, Jair Bolsonaro, havia compartilhado o registro da ação em seu perfil presidencial, intensificando a transmissão da cena ao incomensurável. Com essa ação, Bolsonaro friccionou o caráter micropolítico de nossa performance, elevando-a à esfera macropolítica, de Estado.
Ironicamente, Bolsonaro compartilhou o vídeo após a divulgação de seu aliado, deputado federal e ex-ator da indústria pornográfica, Alexandre Frota. Ao compartilhar o vídeo, Bolsonaro buscou difamar a maior festa popular brasileira, o carnaval, afirmando: “não me sinto confortável em mostrar” –porém não deixou de fazer questão de exibir (Figura 7), contagiando toda a nação.

 

Figura 7 – Tuíte de Jair Bolsonaro em 5/3/2019

Fonte: CRUZ, B. S. Golden shower: Bolsonaro pode ser punido pelo Twitter por vídeo adulto? Tilt Uol, 6 mar. 2019.

 

A partir desta postagem, o assunto se tornou um dos mais divulgados e discutidos no país, com alta repercussão no exterior. Devido à proporção causada pela polêmica, a situação começou a ficar perigosa para nós. Nossos corpos e identidades foram expostos pela liderança máxima da onda neoconservadora, cuja ascensão normatiza diversas expressões de violência, de cunho conservador e de orientação fascista. Bolsonaro, no início do seu mandato, se utilizou de nossa performance para desclassificar a maior festa popular brasileira, o carnaval. Com essa ação, ele também colocou nossa integridade em risco diante da proporção midiática fomentada pela polêmica. Devido à proporção dos fatos – e consequentemente aos riscos que passamos a vivenciar –, precisamos passar semanas refugiadxs. Avaliamos a possibilidade de sair do país, tememos por nossas vidas e de pessoas próximas, mudamos nossa aparência e precisamos de suporte especializado para lidar com a mídia e com os poderes jurídicos. Não sem medo, vivenciamos a intensidade da experiência, com apoio de nossa rede e do movimento anti-bolsonarista.
Enquanto isso, Bolsonaro se tornou alvo de críticas e de chacotas no Brasil e no exterior ao divulgar o que ele mesmo considerava inadequado para circulação pública: imagens explícitas de expressões de gênero e sexualidade dissidentes. Em um movimento de continuidade de produção de polêmicas (característica recorrente das ações do ex-presidente), Bolsonaro lançou um segundo tuíte ainda sobre o caso, questionando “o que é golden shower?” (Figura 8) – intensificando assim as chacotas e julgamentos que chegaram a abalar a sua popularidade. Tanto adversários da esquerda como apoiadores da direita criticaram o então presidente. Em meio às polêmicas, Bolsonaro chegou a receber um pedido de impeachment pela sua falta de decoro e pela alta repercussão em torno do caso.

 

O termo “golden shower” teve um aumento de popularidade no Google e no Pornhub, além de ser citado em programas televisivos[…] O Palácio do Planalto e o próprio Bolsonaro comentaram posteriormente sobre a controvérsia. A dupla que aparece no vídeo original declarou que o ato foi “político-artístico” e, dias depois, apresentou uma denúncia contra o presidente no Supremo Tribunal Federal (STF) exigindo que ele apagasse as postagens, o que foi feito. Retrospectivamente, a frase foi incluída em listas de fatos polêmicos e marcantes sobre o governo Bolsonaro e foi analisada como um exemplo de sua “obsessão fálica” (Wikipedia, 2025)(12)

 

Figura 8 – Matéria no portal G1 (2019)

Fonte: G1 ,6 mar .2019.

 

O ex-presidente não só publicou um vídeo com o que ele afirma considerar “inadequado” em seu canal de comunicação oficial, como levou práticas sexuais e expressões de gênero dissidentes para a mídia internacional, tornando-as mais populares para toda nação. Ora, ele instigou o debate que para nós é emergente: a visibilidade e a ampliação da discussão acerca de práticas e expressões sexuais de gênero para além da cis-hetero-normatividade.
Após uma ação movida pela advogada Cynthia Almeida Rosa e pelo advogado Flávio Grossi(13) no Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro recuou em silêncio, apagando as postagens. Publicamente, ele nunca mais falou sobre o assunto; já nós seguimos lidando com as consequências e reverberações dos fatos – tudo isso em meio à continuidade e à consolidação dos trabalhos com o movimento Pornô Desviante(14). Este, tem por base fomentar expressões e experiências estéticas das dissidências sexuais e de gênero – entendendo que o moralismo dominante em nossa sociedade não só reforça como fomenta esses estigmas, que promovem o subdesenvolvimento de condutas sexuais. Através do Pornô Desviante, buscamos ampliar experiências e debates, produzindo repertório diversificado, de expressões sexuais desviantes, em nossa sociedade.

 

1. Me utilizo do “x” quando me refiro a pessoas que não se adequam, tão pouco se expressam pela lógica binária de gênero.
2. O termo kuir ou cuir, se refere ao marcador latino-americano para diferenciar do movimento estético-político em relação ao queer norte-americano.
3. Publicado na França em 2000 ,e em 2014, no Brasil, pela n-1Edições.
4. Coletivo artístico anarquista que realizou ações pós-pornô-terroristas nos anos 2010 em território latino-americano.
5. Sobre pornoterrorismo, conferir a obra Pornoterrorismo (2017) de Diana Torres.
6. Movimento artístico de produção contracultural na música e performance. Seu álbum independente está disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=fWmjnhEl4qA>. Acesso em: 29 mar. 2025.
8. No dialeto pajubá, “edi” representa cu, e a sigla“diy”,utilizada inicialmente por movimentos contraculturais, representa do it yourself (faça você mesmo). Da junção de edi+diy, surge: Ediy.
9. Para Lygia Clark, proposições são propostas poéticas, que convocam as pessoas a se relacionarem com a obra/objeto artístico para além da apreciação como meras espectadoras –convocando-as a participarem da criação, cada uma a seu modo.
10. “Enquanto o engenheiro captura tudo o que funciona, e isso para que tudo funcione melhor a serviço do sistema, o hacker se pergunta ‘como isso funciona?’ para encontrar as falhas, mas também para inventar outras utilizações, para experimentar. Experimentar significa, então, viver o que implica eticamente esta ou aquela técnica. O hacker vem arrancar as técnicas do sistema tecnológico, libertando-as” (COMITÊ INVISÍVEL, 2018, p. 151).
11. Bloco de carnaval LGBTI+ de São Paulo.
13. Dupla de advogados ativistas que nos acolheu juridicamente sem custos.
14. Que pode ser conferido no site da produtora EdiyPorn: pornô desviante, on-line desde 2020. Disponível em: www.ediyporn.com . Acesso 29 mar. 2025

 

Referências
COMITÊ INVISÍVEL. Aos nossos amigos: crise e insurreição. 2a edição. São Paulo: n-1 edições, 2018, p. 151.
COSTA, P.; NOGUEIRA, F. Da pornochanchada ao Pós-pornô-Terrorismo no Brasil: d’As Cangaceiras Eróticas ao Coletivo Coiote. Medium, 24 dez. 2014. Disponível em:<https://medium.com/revista-rosa-5/da-pornochanchada-ao-pos-porno-terrorismo-no-brasil-dascangaceiras-eroticas-ao-coletivo-coiote-f0f4ab92836>. Acesso em: 29 mar. 2025.
KAC, E. Movimento de Arte Pornô (Movimento de Arte Pornô (Performance “intervenção”, Praiade Ipanema, 1982) DVD da performance 4’43’’, preto & branco, som, vídeo. Tropicuir, 2024. Disponível em:<https://www.tropicuir.org/obras-corpo/>. Acesso em: 29 mar. 2025.
Movimento Chega de Estupros em Rio das Ostras promove dois encontros. UFF. 25 nov. 2014. Disponível em: <https://www.uff.br/informe/movimento-chega-de-estupros-em-rio-das-ostras-promove-dois-encontros/>. Acesso em: 29.03.25
PF investiga festa “satânica” na UFF; mais dois eventos estão marcados. UOL. 04 jun. 2014. Disponível em: <https://educacao.uol.com.br/noticias/2014/06/04/pf-investiga-festa-satanica-na-uff-mais-dois-eventos-estao-marcados.htm>. Acesso em: 29 mar. 2025.
PRECIADO, P. B. Manifesto contrassexual: práticas subversivas de identidade sexual. São Paulo: n-1 edições, 2014.
____.O que é a contrassexualidade? Territórios de Filosofia, 5 mai. 2015. Disponível em:<https://territoriosdefilosofia.wordpress.com/2015/05/05/o-que-e-a-contrassexualidade-paul-beatriz-preciado/>. Acesso em: 29 mar. 2025.
____.Testo junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica, SãoPaulo: n-1 edições, 2018.
SANTOS, D. M. As travestis no cinema da boca do lixo e na pornografia digital. 2019. Dissertação (Mestrado em Sociologia) –Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, 2019, p.31. Disponível em:<https://repositorio.ufscar.br/handle/ufscar/11583>.Acessoem:11jan.2024.
TORRES, Diana J. Pornoterrorismo. 4. ed. Tafalla: Txalaparta, 2017.

 

Referências audiovisuais
ANARCOFUNK-Álbum completo, 2013. 1 vídeo (1h19min33). KFHPowerciolence, YouTube. Disponível em:<https://youtu.be/fWmjnhEl4qA>. Acesso em: 29 mar .2025.
EDIYPORN: pornô desviante. Disponível em: <https://www.ediyporn.com/>. Acesso em: 29 mar. 2025.
MI SEXUALIDAD ES UNA CREACIÓN ARTÍSTICA. Realização: Lucía Egaña Rojas. Barcelona: [s.n.], 2011. 46 min. (Documentário). Disponível em:<https://zoiahorn.anarchaserver.org/misexualidad/creditos/>. Acesso em: 8 janeiro 2026.

 

>O presente artigo compõe a revista cientifica da faculdade de artes do paraná: práticas artísticas contracoloniais. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/revistacientifica/article/view/10917/7414

 

 

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