{"id":3518,"date":"2024-08-12T10:58:25","date_gmt":"2024-08-12T13:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ediyporn.com\/?post_type=posts_diversos&#038;p=3518"},"modified":"2025-04-09T14:22:15","modified_gmt":"2025-04-09T17:22:15","slug":"porno-desviante-mexer-na-logica-de-producao-e-consumo-de-pornografia","status":"publish","type":"posts_diversos","link":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/posts_diversos\/porno-desviante-mexer-na-logica-de-producao-e-consumo-de-pornografia\/","title":{"rendered":"Porn\u00f4 Desviante: mexer na l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o e consumo de pornografia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em>&gt;&gt; texto traduzido ao espanhol e publicado no livro<br \/>\nEl Dedo en el Porno, organizado por Laura Milano.<\/em><\/p>\n<p><strong>Porn\u00f4 Desviante: mexer na l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o e consumo de pornografia<\/strong><br \/>\npor EdiyPorn<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u201cA pornografia \u00e9 uma arma poderosa<br \/>\ndemais para ser deixada na m\u00e3o de outrxs\u201d<\/em><br \/>\nPaul B. Preciado<\/p>\n<p><strong>Contexto: inflex\u00f5es culturais<\/strong><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, os debates em torno de quest\u00f5es de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe amadureceram e se complexificaram no mundo todo: branquitude e cisgeneridade s\u00e3o conceitos de uso cada vez mais comum, reconhecidos como elementos estruturantes da nossa subjetividade. Os paradigmas do cis-tema est\u00e3o sendo compreendidos e as disputas em rela\u00e7\u00e3o a opress\u00f5es estruturais est\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o. Tem ficado cada vez mais evidente a toxicidade que nos condicionaram a reproduzir e, \u00e0 medida que vamos nos conscientizando sobre os vetores que organizam nossas estruturas socioculturais, vamos entendendo que nossas subjetividades foram moduladas de forma limitadora. Somos parte de um movimento geracional que est\u00e1 comprometido com o rompimento desse fluxo de toxinas compuls\u00f3rio; colaboramos com a cria\u00e7\u00e3o de novas estruturas e ideias que buscam dar continuidade aos processos de ruptura e emancipa\u00e7\u00e3o que nos trouxeram at\u00e9 aqui.<\/p>\n<p>Nossas subjetividades s\u00e3o constru\u00eddas em di\u00e1logo com o meio social em que habitamos. Aprendemos e absorvemos uma s\u00e9rie de refer\u00eancias socioculturais diretamente ligadas ao \u201cacesso aos bens materiais e imateriais, suas hierarquias e suas representa\u00e7\u00f5es\u201d. Para Suely Rolnik, nossos modos de subjetiva\u00e7\u00e3o est\u00e3o condicionados ao dom\u00ednio do &#8220;inconsciente colonial-capital\u00edstico\u201d, uma assimila\u00e7\u00e3o de c\u00f3digos vindos do cotidiano, intr\u00ednsecas \u00e0s nossas condi\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-culturais e seus respectivos imagin\u00e1rios. A experi\u00eancia da subjetividade na qualidade de \u201csujeitx\u201d se d\u00e1 por meio do que Rolnik conceituou como \u201cpessoal-sensorial-sentimental-cognitiva\u201d, onde camadas da nossa constru\u00e7\u00e3o ps\u00edquica est\u00e3o cafetinadas, como ela diz, pela l\u00f3gica colonial no regime capitalista. Uma vez reconhecido o n\u00edvel de coopta\u00e7\u00e3o pelo sistema, \u00e9 preciso que nos reconectemos com nossa puls\u00e3o, segundo ela, tecendo redes micropol\u00edticas e decodificando nossos atravessamentos, em busca de processos e procedimentos emancipat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Em um v\u00eddeo no qual debate estere\u00f3tipos e preconceitos, a drag Rita Von Hunty nomeia de Processos Cognitivos da Cultura o modo como associamos determinadas caracter\u00edsticas a determinadas imagens, criando o significado que damos \u00e0s coisas. Ela relaciona o processo de produ\u00e7\u00e3o dos significados das palavras com o processo industrial e o projeto pol\u00edtico de manter grupos minorit\u00e1rios politicamente em seu lugar oprimido por meio da linguagem e do imagin\u00e1rio gerado por ela. Em conversa sobre seu livro Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o, a artista e psicanalista Grada Kilomba aponta quest\u00f5es presentes na nossa l\u00edngua, acusando suas limita\u00e7\u00f5es e racismos. Para ela, nossos idiomas precisam ser reinventados para que possam abarcar sujeitas em sua complexidade de g\u00eanero e ra\u00e7a. Os construtos culturais agem tamb\u00e9m sobre o corpo: a atriz e dramaturga Jana\u00edna Leite, quando se v\u00ea atuando tecnicamente em uma cena porn\u00f4, acessa em sua mem\u00f3ria o repert\u00f3rio de imagens relacionadas \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o a fim de buscar refer\u00eancias para os seus movimentos gerando um questionamento sobre o acervo imag\u00e9tico criado pela pornografia. Se pensarmos que as imagens criadas pelo porn\u00f4 tradicional s\u00e3o frutos de processos cognitivos pouco conscientes de suas toxicidades, no momento em que se consome produ\u00e7\u00f5es criadas dentro dessa l\u00f3gica, colocamos em a\u00e7\u00e3o repert\u00f3rios de imagens que nos levam a reproduzir uma ideia de desejo e prazer que n\u00e3o necessariamente \u00e9 aquela que nos contemplaria. As hierarquias sociais impostas pelo cis-tema colonial-capital\u00edstico se mostram mais complexas quando falamos de territ\u00f3rios como os latino-americanos, cujas sociedades atuais foram criadas por colonizadores europeus a partir da invas\u00e3o de terras ind\u00edgenas, chacinas e da escravid\u00e3o de povos origin\u00e1rios e negros. Para a artista Bruna Kury, \u201cs\u00f3 quando a hegemonia e os sentimentos cognitivos do capitalismo falirem \u00e9 que podemos voltar a falar de desejante\/desej\u00e1vel de uma forma mais digna.\u201d Nesse sentido, cabe questionar: quais corpos s\u00e3o desejantes e quais s\u00e3o desej\u00e1veis dentro da nossa sociedade? Como interferir na estrutura social que fundamenta nossas estruturas de desejo? Como mexer nos processos cognitivos do tes\u00e3o? N\u00e3o somos capazes de responder a essas perguntas, por\u00e9m vemos o porn\u00f4 desviante enquanto meio de acesso e estrat\u00e9gia que cria fissuras nessas estruturas.<\/p>\n<p>Em &#8220;Po\u0301s-porno\u0302, disside\u0302ncia sexual e a situacio\u0301n cuir latino-americana: pontos de partida para o debate&#8221;, a pesquisadora Erica Sarmet contextualiza os pilares da p\u00f3s-pornografia, resgatando a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina e seus movimentos de subvers\u00e3o de imagin\u00e1rio sexuais e pol\u00edticos. Para Sarmet, &#8220;diversos artistas trabalharam com questo\u0303es referentes ao corpo, a\u0300 sexualidade, a\u0300 pornografia e a\u0300 identidade de ge\u0302nero sem que seus trabalhos fossem enquadrados nessas categorizac\u0327o\u0303es&#8221; de pospornografia; reconhecemos que h\u00e1 uma s\u00e9rie de artistas e ativistas colocando em pauta quest\u00f5es relacionadas \u00e0 pornografia na literatura, no audiovisual, performance, nas artes visuais e em espa\u00e7os p\u00fablicos desde antes da cria\u00e7\u00e3o do conceito p\u00f3s-pornografia, que ocorreu nos Estados Unidos nos anos 1980. Tamb\u00e9m em busca da latino-americaniza\u00e7\u00e3o das discuss\u00f5es, Hija de Perra escreve um artigo criticando o termo queer, atentando para a import\u00e2ncia de nos contextualizarmos enquanto latinoam\u00e9rica e compreendendo que as l\u00f3gicas e os termos que importamos do norte global n\u00e3o necessariamente se encaixam no nosso contexto. Entendemos que a quest\u00e3o de g\u00eanero e sexualidade \u00e9 parte do corpo e da subjetividade e, por isso, \u00e9 indissoci\u00e1vel de experi\u00eancias de ra\u00e7a e classe. Por isso, hoje falamos de teoria cuir\/kuir\/cuy e interseccionalidade: n\u00e3o conseguimos desvencilhar nosso presente das consequ\u00eancias de sermos uma sociedade constru\u00edda a partir de uma violenta coloniza\u00e7\u00e3o, e essa tem sido uma tem\u00e1tica recorrente nas abordagens p\u00f3s-pornogr\u00e1ficas na latinoam\u00e9rica nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>As perspectivas interseccionais nos movimentos culturais e contra-culturais s\u00e3o uma marca importante da nossa contemporaneidade: estamos mais conscientes dos processos cognitivos da cultura de que nos fala Rita Von Hunty. Estamos criando outros significados e outros par\u00e2metros cognitivos por meio da produ\u00e7\u00e3o de refer\u00eancias socioculturais comprometidas com demandas interseccionais, que articulam g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, questionando o cis-tema colonial-capital\u00edstico. Trata-se de um ativismo que tem elaborado cruzamentos entre os movimentos que buscam pol\u00edticas de equidade e de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica \u2013 Ventura Profana profetizando Jup do Bairro, nua, tomando a faixa presidencial, \u00e9 a dissid\u00eancia orgulhosa da pr\u00f3pria corpa, tomando espa\u00e7os de poder. Os reflexos dessa movimenta\u00e7\u00e3o em rede t\u00eam se mostrado em trocas micro e macro pol\u00edticas; nas elei\u00e7\u00f5es municipais de novembro de 2020, tivemos o maior n\u00famero de pessoas trans eleitas na hist\u00f3ria, sendo a mulher vereadora mais votada do pa\u00eds uma trans negra: Erika Hilton, do PSOL. Ela se consolida como uma l\u00edder pol\u00edtica que est\u00e1 em di\u00e1logo com as frentes ativistas que atuam por menos opress\u00e3o; Hilton \u00e9 uma das agentes que est\u00e1 na pol\u00edtica institucional com um olhar interseccional, levando a pot\u00eancia desse movimento geracional: \u201cEstamos dando um passo de cada vez. A gente tem urg\u00eancia, pressa n\u00e3o. Porque foram 388 anos de escravid\u00e3o, quase 140 de uma falsa aboli\u00e7\u00e3o. [&#8230;] A gente chegou aqui com muita calma, muita estrat\u00e9gia, muita resili\u00eancia. Ent\u00e3o seguimos na urg\u00eancia, mas sem pressa. E \u00e9 preciso dizer: as coisas v\u00e3o mudar. [&#8230;] N\u00f3s somos a possibilidade da ruptura de um projeto nefasto, colonizador, genocida que se implementou no Brasil desde a invas\u00e3o dessas terras.\u201d A vereadora ainda participou do filme \u201cPra Onde Voam as Feiticeiras\u201d, que estreou no mesmo m\u00eas de sua elei\u00e7\u00e3o. Dirigido por Eliane Caff\u00e9, Carla Caff\u00e9 e Beto Amaral, o longa \u00e9 um retrato do ativismo interseccional em S\u00e3o Paulo e \u00e9 constru\u00eddo transgredindo as hierarquias do audiovisual, de maneira coerente com o discurso da equidade e do lugar de fala. O filme acompanha Ave Terrena, Gabriel Lodi, Mariano Mattos Martins, Fernanda Ferreira, Ailish, Preta Ferreira, Thata Lopes e Wan Gomez, performers LGBTQIA+ que conduzem cenas p\u00fablicas no centro de S\u00e3o Paulo e fazem encontros com outros segmentos de movimentos sociais, gerando debates sobre quest\u00f5es de identidade, desigualdade, privil\u00e9gio e opress\u00e3o.<\/p>\n<p>Vemos cada vez mais narrativas e po\u00e9ticas elaboradas desde perspectivas historicamente apagadas e marginalizadas. \u201cTu vem me dizer \/ Que s\u00f3 trepa com homem bombado \/ Apenas pare, querida \/ Vem fuder com os vyado \/ C\u00ea sabe, n\u00e3o sou sarada\/ E n\u00e3o fa\u00e7o academia\/ Mas arraso numa cama\/ Inventando pornografia\u201d, diz a letra de \u201cPare, Querida\u201d, m\u00fasica de Linn da Quebrada lan\u00e7ada em 2016. No caso de Linn, s\u00e3o versos e performances que acusam o racismo e a transfobia e que descrevem imagens de rela\u00e7\u00f5es sexuais que ironizam o falocentrismo, trazendo outras possibilidades de prazeres. Ela, assim como Jup do Bairro e Ventura Profana, pregam a uni\u00e3o em rede de corpas dissidentes por meio da reinterpreta\u00e7\u00e3o da espiritualidade. Ent\u00e3o, Ventura Profana, a pastora das travas, prop\u00f5e os novos valores: \u201cn\u00e3o adianta ungir quem n\u00e3o obedece ao caos.\u201d A moral e os bons costumes s\u00e3o aliados fundamentais para a manuten\u00e7\u00e3o da estrutura social capitalista que incentiva os cidad\u00e3os de bem \u00e0 t\u00e3o necess\u00e1ria ordem e progresso. Para quem? A custo de quais vidas? \u201cOra pois, quando fomos amarradas e lan\u00e7adas na fornalha\/ Em sua mais alta temperatura\/ Por n\u00e3o nos dobrarmos diante do trono de nenhum senhor\/ Foi que Deise se revelou a n\u00f3s\u201d. Em julho de 2020, Ventura Profana e sua parceira musical Podeserdesligado lan\u00e7aram o \u00e1lbum Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor, enaltecendo viv\u00eancias trans, pretas e gordas e debochando da branquitude classista e das hipocrisias do evangelismo. Essas tr\u00eas travestis, multiartistas e negras, s\u00e3o refer\u00eancia importantes para pensarmos estrat\u00e9gias de exist\u00eancia e resist\u00eancia na produ\u00e7\u00e3o de novas formas de subjetividades e imagin\u00e1rios sexuais, afetivos, espirituais, raciais e de g\u00eanero. Pela urg\u00eancia de suas tem\u00e1ticas e pela qualidade de suas po\u00e9ticas, elas v\u00eam ganhando cada vez mais visibilidade e acesso a meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Jup e Linn apresentam um programa de entrevistas no Canal Brasil e Ventura foi uma das finalistas do Pr\u00eamio Pipa 2020, o maior pr\u00eamio brasileiro voltado \u00e0s artes visuais.<\/p>\n<p>Em nossos processos de emancipa\u00e7\u00e3o colonial e mudan\u00e7a de paradigmas, a interseccionalidade e a micropol\u00edtica s\u00e3o conceitos fundamentais para que possamos romper com os valores que fazem viv\u00eancias n\u00e3o normativas serem colocadas \u00e0 margem. Bruna Kury, em debate da Unicamp realizado em junho de 2020, tensiona a quest\u00e3o moral da dignidade do afeto em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 monstruosidade de corpas soropositivas ou que se afastam da hegemonia. Em um paralelo \u00e0 l\u00f3gica territorialista que desaloja povos ind\u00edgenas para construir hidrel\u00e9tricas ou que forja inc\u00eandios em favelas para construir shoppings e galerias de arte, Kury usa o termo \u201cgentrifica\u00e7\u00e3o do afeto\u201d para a economia higienista que o espectro do desejo hegem\u00f4nico cria. \u00c9 fundamental reconhecer que o plano urbano \u00e9 concebido a partir dos mesmos paradigmas que constroem o nosso desejo e que \u00e9 determinante para o desenvolvimento das nossas subjetividades e do modo como nos relacionamos. Ou seja, o mesmo higienismo que faz vidas n\u00e3o abastadas serem marginalizadas \u00e9 aquele que separa o normal e o adequado daqueles que n\u00e3o s\u00e3o dignos. Por essa l\u00f3gica, nos condicionaram a sentir nojo dos pr\u00f3prios cheiros e flu\u00eddos e vergonha de certos desejos e prazeres a gentrifica\u00e7\u00e3o do afeto \u00e9 um dos fatores que faz a taxa de suic\u00eddio de pessoas sexo-g\u00eanero dissidentes ser t\u00e3o alta.<\/p>\n<p>O cis-tema colonial-capitalista molda nossas vidas de maneira inexor\u00e1vel nossa estrutura social e ps\u00edquica est\u00e1 baseada na l\u00f3gica racializante, bin\u00e1ria, hier\u00e1rquica e capacitista. Para Pachaqueer, coletivo de monstras performers, \u201cde uma ou outra forma, todes estamos doentes ou s\u00e3xs, presxs a estere\u00f3tipos e ideais para poder estar dentro desta sociedade a qual prefiro chamar \u2018suciedad\u2019, ningu\u00e9m est\u00e1 livre dos tent\u00e1culos neoliberais\u201d. N\u00e3o existe quem se livre de tudo o que foi ensinado e imposto. Partindo dessa admiss\u00e3o, podemos reconhecer as l\u00f3gicas t\u00f3xicas que somos capazes de reproduzir e ent\u00e3o atentarmos \u00e0s nossas pr\u00f3prias a\u00e7\u00f5es para romper com seus fluxos. Interseccionalidade, afinal, \u00e9 sobre se contextualizar hist\u00f3rica, social e territorialmente, fazer alian\u00e7as, se unir e se fortalecer em rede.<\/p>\n<p><strong>Porn\u00f4 Desviante: arejar imagin\u00e1rios sexuais<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 a partir dessa premissa que o porn\u00f4 desviante da EdiyPorn se cria: baseado em uma \u00e9tica emancipat\u00f3ria que a um s\u00f3 tempo enfrente as din\u00e2micas de marginaliza\u00e7\u00e3o e de privil\u00e9gios presentes na estrutura\u00e7\u00e3o do desejo sexual e priorize o tes\u00e3o e o conforto de quem constr\u00f3i a cena. Nossos filmes s\u00e3o primeiro sobre corpos e desejos \u2013 depois sobre a imagem. Ou como diz a pesquisadora Helen Torres: \u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o de corpos diversos, sen\u00e3o tamb\u00e9m de trabalhar com outros sentidos al\u00e9m do olhar, para que assim a representa\u00e7\u00e3o seja fruto de todos os sentidos\u201d. Estamos veiculando em nossa plataforma online representa\u00e7\u00f5es que buscam dar conta desta complexidade: em ediyporn.com distribu\u00edmos produ\u00e7\u00f5es autorais e tamb\u00e9m de outras pessoas e produtoras independentes. Se a pornografia aciona e constr\u00f3i nossa subjetividade sexual de maneira profunda, \u00e9 importante interferir na l\u00f3gica de produ\u00e7\u00e3o e consumo desses materiais: para que possamos arejar nossos imagin\u00e1rios sexuais e desfrutar de representa\u00e7\u00f5es pornogr\u00e1ficas que nos contemplem, e que n\u00e3o reproduzamos viol\u00eancias e opress\u00f5es estruturais. E se o porn\u00f4 desviante existe a partir do p\u00f3s-porn\u00f4, talvez seja poss\u00edvel dizer que trabalhamos com base em uma \u00e9tica p\u00f3s-pornogr\u00e1fica:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>O posporn\u00f4 \u00e9 de monstras empoderadas que mostram sua sexualidade sem pudores nem dissimula\u00e7\u00f5es, que mostram suas feridas de guerra, que mostram o que a sociedade bem-pensante convidou a esconder. Mostram corpos que rompem com o sistema bin\u00e1rio de sexo-g\u00eanero, com as categorias de orienta\u00e7\u00e3o sexual, de normalidade corporal e de capacidade\u2026 e que n\u00e3o s\u00f3 busca a excita\u00e7\u00e3o sexual, sen\u00e3o que buscam que essa excita\u00e7\u00e3o seja produzida tamb\u00e9m atrav\u00e9s do humor, da ironia e do discurso cr\u00edtico. <\/em><br \/>\n(POST-OP (2013), p. 198)<\/p>\n<p>O porn\u00f4 desviante \u00e9 a estrat\u00e9gia que encontramos para fissurar a pornografia, repensando sua forma de concep\u00e7\u00e3o e desfrute, buscando uma outra estrutura de produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de conte\u00fados pornogr\u00e1ficos. Nesse sentido, a EdiyPorn se organiza enquanto um agrupamento de pessoas em busca de oxigenar as subjetividades sexuais, criando novas possibilidades para o que se entende como sexo e suas representa\u00e7\u00f5es. Estamos formando uma rede preocupada em revisar e discutir as problem\u00e1ticas da pornografia tradicional e colocar em pr\u00e1tica outras formas, mais libertadoras, de cria\u00e7\u00e3o de pornografia. Somos um coletivo de experimenta\u00e7\u00e3o sexual, est\u00e9tica e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Nossas produ\u00e7\u00f5es audiovisuais surgem a partir dos nossos corpos, da busca por acessar desejos e da vontade de compartilhar esses processos \u2013 partimos de experi\u00eancias \u00edntimas, onde nos colocamos enquanto corpos desejantes e desej\u00e1veis, sujeitxs ativxs e respons\u00e1veis pelas pr\u00f3prias narrativas. Trabalhamos de forma independente por n\u00e3o termos patroc\u00ednios ou possibilidade de acessar editais p\u00fablicos, uma vez que a pornografia n\u00e3o tem o status de forma de arte. Por conta dos nossos baixos or\u00e7amentos, muitas vezes acumulamos fun\u00e7\u00f5es dentro das produ\u00e7\u00f5es, atuando como produtorxs, performers, fotografxs, editorxs, coloristas e por a\u00ed vai. Esse interc\u00e2mbio nos facilita percep\u00e7\u00f5es \u00e9tico-est\u00e9ticas na realiza\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos e filmes e nos possibilita percep\u00e7\u00f5es abrangentes na composi\u00e7\u00e3o de nossos repert\u00f3rios e no entendimento dos processos de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Lidamos com os pudores introjetados no nosso inconsciente que buscam ocultar quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sexualidade. Na pot\u00eancia e na intensidade de tal investiga\u00e7\u00e3o, \u00e0s vezes temos que dialogar com nossas dem\u00f4nias internas \u2013 e temos aprendido que elas t\u00eam potencial de nos dar informa\u00e7\u00f5es preciosas sobre quem somos e nossos devires. Quando umx performer se coloca como agente numa produ\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica, nosso trabalho enquanto produtora e equipe \u00e9 facilitar para que essa pessoa esteja \u00e0 vontade e entre em contato com sua puls\u00e3o criativa e seus desejos, vivenciando seu tes\u00e3o de forma expl\u00edcita e sincera. Um dos lugares de pot\u00eancia vem sendo formar espa\u00e7os de conflu\u00eancia, contribuindo para a participa\u00e7\u00e3o de pessoas interessadas em trabalhar com pornografia, mas que nunca tiveram oportunidade ou coragem. O que nos interessa desse interc\u00e2mbio \u00e9 ver as multiplicidades de performers e performances, e que, no momento da grava\u00e7\u00e3o, elxs se reconhe\u00e7am enquanto corpos que desejam e que s\u00e3o desej\u00e1veis. Acessar essa sensa\u00e7\u00e3o exercendo o exibicionismo de performar para um porn\u00f4 desviante \u00e9 uma possibilidade de resposta a normas est\u00e9ticas e comportamentais instaladas pela pornografia mainstream e suas representa\u00e7\u00f5es objetificadoras e exotificantes. Criar as pr\u00f3prias narrativas \u00e9 um movimento de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Exploramos a pot\u00eancia de expandir os nossos limites, vivenciando fetiches e\/ou realizando experimenta\u00e7\u00f5es sexuais e est\u00e9ticas. Nesse sentido, refletimos sobre a amplia\u00e7\u00e3o das compreens\u00f5es de si que as viv\u00eancias sexuais podem nos apresentar; podemos ser e explorar as muitas personas que habitam em n\u00f3s. \u201cVil, M\u00e1\u201d \u00e9 um document\u00e1rio de Gustavo Vinagre cuja protagonista \u00e9 Vilma (VINAGRE, Gustavo (2020)), escritora e dominatrix, ela explodiu nos anos 1970 escrevendo contos er\u00f3ticos para revistas brasileiras. Os textos eram criados a partir dos programas que ela fazia com seus clientes fetichistas: cada situa\u00e7\u00e3o demandava uma determinada performance para que Vilma pudesse acessar e dialogar com o desejo do cliente. No filme, ela ressalta que as experi\u00eancias que viveu lhe trouxeram abertura para experimenta\u00e7\u00f5es de si mesma; com a pr\u00e1tica, ela foi adquirindo seguran\u00e7a e desvendando seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios e limites conforme se desenrolavam as negocia\u00e7\u00f5es entre seus desejos e os de quem a contratava.<\/p>\n<p>Ajustamos nossas performances sociais de acordo com o espa\u00e7o em que nos encontramos, com nosso humor, objetivos ou intera\u00e7\u00f5es interpessoais. O modo como nos portamos \u00e9 parte do arsenal de c\u00f3digos culturais que aprendemos ao decorrer da vida. \u00c0 medida que vamos acessando refer\u00eancias que desautorizam as normas estabelecidas, vamos deformando e modificando como nos apresentamos. As performances sexuais s\u00e3o parte desse mesmo processo, mas n\u00e3o acessamos suas refer\u00eancias somente por meio de materiais que falam diretamente sobre sexualidade. Entendemos que essa constru\u00e7\u00e3o est\u00e1 acontecendo o tempo todo, como Bruna Kury diz: quando assistimos o casal cisg\u00eanero, heterossexual, de pele branca ou clara e corpo magro apresentando o telejornal, nosso imagin\u00e1rio sexual tamb\u00e9m est\u00e1 sendo alimentado. N\u00e3o podemos agir sobre o que a televis\u00e3o nos oferece, mas sim sobre como recebemos essas informa\u00e7\u00f5es, compreendendo que a cultura e a subjetividade est\u00e3o em constante di\u00e1logo. Assim como qualquer outro produto cultural, a pornografia tem o poder de reafirmar construtos sociais e modos de vida; cabe a quem produz esses conte\u00fados escolher o que valorizar e a quem consome, optar por iniciativas nas quais acredite. Atuar na contram\u00e3o dos modelos normativos nos posiciona enquanto agentes de uma micropol\u00edtica que busca o rompimento desses padr\u00f5es hegem\u00f4nicos, fortalecendo as dissid\u00eancias de que fazemos parte e com as dialogamos.<\/p>\n<p><strong>Outras representa\u00e7\u00f5es e o mercado sexual-capital\u00edstico <\/strong><\/p>\n<p>A EdiyPorn foi criada a partir do desejo de nos estruturarmos e de estabelecermos uma alternativa \u00e0 pasteuriza\u00e7\u00e3o do porn\u00f4 hegem\u00f4nico. Dentro da plataforma online, o conte\u00fado est\u00e1 dividido em quatro abas principais: Diversos, onde veiculamos gratuitamente textos, v\u00eddeo-performances, podcasts, fotos, entrevistas e produ\u00e7\u00f5es que exploram v\u00e1rias m\u00eddias e linguagens, trazendo diferentes olhares em rela\u00e7\u00e3o ao desejo, ao tes\u00e3o e \u00e0 putaria; Goze Junte, galeria aberta para troca de v\u00eddeos de masturba\u00e7\u00e3o, onde recebemos material do p\u00fablico \u2013 para participar, basta mandar seu v\u00eddeo de masturba\u00e7\u00e3o de at\u00e9 1\u2019 para ediyproducoes@gmail.com; Servi\u00e7os, em que divulgamos nossos servi\u00e7os de produ\u00e7\u00e3o por demanda e realiza\u00e7\u00e3o de performances; e Exclusivo, \u00e1rea do site exclusiva para assinantes em que publicamos nossas produ\u00e7\u00f5es audiovisuais autorais e de colaboradorxs do porn\u00f4 independente.<\/p>\n<p>Acreditando que a forma de apresentar nossos conte\u00fados tamb\u00e9m \u00e9 um modo de interferir nas l\u00f3gicas de consumo de porn\u00f4, os v\u00eddeos de nosso acervo exclusivo n\u00e3o s\u00e3o separados por categorias, mas est\u00e3o dispostos por ordem de postagem. Nossas s\u00e9ries agrupam v\u00eddeos produzidos sob um determinado conceito: Pornoblock, por exemplo, inclui produ\u00e7\u00f5es com base fetichista que exploram o apelo est\u00e9tico de luzes, arte e figurinos; DIY \u2013 Fa\u00e7a Voc\u00ea Mesme agrupa cenas caseiras feitas por colaboradorxs; Sess\u00e3o traz v\u00eddeos de pr\u00e1ticas BDSM, e por a\u00ed vai. A pornografia hegem\u00f4nica condicionou o modo como a consumimos, segmentando os materiais em categorias que refletem nomenclaturas e hierarquias e suas limita\u00e7\u00f5es: o que \u00e9 considerado mais desej\u00e1vel ser\u00e1 acessado com mais facilidade (cis-ht, branco e magro), enquanto o que \u00e9 considerado ex\u00f3tico ou bizarro fica fora da home, acess\u00edvel apenas mediante pesquisa \u2013 e para escrever no buscador \u00e9 bom saber o que voc\u00ea procura. Pensando na dimens\u00e3o micropol\u00edtica dessas categoriza\u00e7\u00f5es, optamos por uma navega\u00e7\u00e3o que possibilite a quem acesse o conte\u00fado esbarrar em materiais inesperados, e que nesse devaneio tenha a possibilidade de desvendar outros desejos e prazeres sexuais. Parte da nossa proposta para oxigenar imagin\u00e1rios sexuais \u00e9 produzir esse deslocamento para fora da zona de conforto gerada pelo lugar comum e defensivo do \u201cesse \u00e9 meu desejo\u201d. N\u00e3o queremos respostas, queremos perguntas e descobertas que adubem nossas percep\u00e7\u00f5es de prazeres sexuais.<\/p>\n<p>Sem a necessidade de uma narrativa programada que contemple a dramaturgia do que pode ser considerado \u201csexo\u201d \u2013 preliminar\/ penetra\u00e7\u00e3o\/ gozo \u2013, nossas produ\u00e7\u00f5es procuram trabalhar desde outra l\u00f3gica, na qual o objetivo \u00e9 prezar pelo conforto e pelo tes\u00e3o da equipe. A dire\u00e7\u00e3o das cenas se d\u00e1 a partir dos acordos e desejos de quem performa, buscando uma din\u00e2mica de set sem as hierarquias usuais do audiovisual. Para n\u00f3s, \u00e9 fundamental a comunica\u00e7\u00e3o entre performers, c\u00e2mera e produ\u00e7\u00e3o, de modo que todos deem seu consentimento para as pr\u00e1ticas realizadas em cena e para o modo como se dar\u00e1 a grava\u00e7\u00e3o. Durante nossos processos de desenvolvimento po\u00e9tico, percebemos, tamb\u00e9m, a import\u00e2ncia da pessoa que edita os v\u00eddeos se deixar envolver pelo material: \u00e9 n\u00edtido quando a edi\u00e7\u00e3o \u00e9 feita por algu\u00e9m que sentiu tes\u00e3o pelo material ou se sentiu contempladx pelas cenas. Buscamos, durante todo o processo de produ\u00e7\u00e3o, dialogar, escutar e trocar, a fim de parear os fluxos, de forma que o v\u00eddeo final possa transmitir, por meio dos cortes, sons, imagens e cores, a energia do tes\u00e3o sentido pelos performers.<\/p>\n<p>Em paralelo \u00e0s produ\u00e7\u00f5es em v\u00eddeo, desenvolvemos uma pesquisa acerca de corpo e performance, investigando a pot\u00eancia de interven\u00e7\u00f5es pornogr\u00e1ficas em espa\u00e7os p\u00fablicos e privados. As a\u00e7\u00f5es, nomeadas Pornoshow, partem do interesse por transgredir as limita\u00e7\u00f5es das constru\u00e7\u00f5es sociais em torno de corpo, sexo e intimidade. Entre interven\u00e7\u00f5es mais ou menos improvisadas, n\u00f3s nos encontramos para investigar e pesquisar nossas corporalidades e modos de expor o sexual de forma aberta e audaz. Nesses encontros, discutimos viv\u00eancias pessoais, conversamos sobre consentimento e CNV (comnica\u00e7\u00e3o n\u00e3o-violenta), realizamos oficinas de BDSM e rodas de masturba\u00e7\u00e3o, entre outros tantos exerc\u00edcios criados em busca de vivenciar experi\u00eancias que possam ampliar nossas subjetividades e libidos. Entendemos as a\u00e7\u00f5es Pornoshow enquanto dispositivos de hackeamento de imagin\u00e1rios sexuais, nas quais colocamos nossos corpos como campos de experimenta\u00e7\u00e3o e deslocamos o lugar sigiloso da sexualidade, provocando o p\u00fablico. Em mar\u00e7o de 2019, por exemplo, realizamos, no improviso do tes\u00e3o de carnaval, uma a\u00e7\u00e3o que consistia em uma dan\u00e7a anal e uma chuva dourada, seguida por um bate-cabelo respingando mijo pelo ar. A performance aconteceu no BloC\u00fa, um bloco de rua LGBTQIA+ que passa no centro de S\u00e3o Paulo, ao som de Jub do Bairro, que cantava no trio el\u00e9trico. Um registro da a\u00e7\u00e3o viralizou no Twitter at\u00e9 ser respostado pelo ent\u00e3o rec\u00e9m eleito presidente, fazendo o Brasil questionar e conhecer o que \u00e9 Golden Shower?. O car\u00e1ter pol\u00edtico e visceral da entrega do corpo em uma performance busca a pot\u00eancia do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o de corpos marginalizados, como colocado por Guillermo Gomez Pe\u00f1a: \u201cTalvez a meta \u00faltima da performance, especialmente se voc\u00ea for mulher, gay ou pessoa racializada, \u00e9 descolonizar nossos corpos, e expor esses mecanismos descolonizadores para o p\u00fablico, com esperan\u00e7a de que se inspirem e fa\u00e7am o mesmo.\u201d Se o texto de Pe\u00f1a tivesse sido escrito na \u00faltima d\u00e9cada, talvez houvesse mais identidades oprimidas listadas; de todo modo, o que gostar\u00edamos de ressaltar \u00e9 a poss\u00edvel dimens\u00e3o pedag\u00f3gica na rela\u00e7\u00e3o com o p\u00fablico. No interior do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, ocorre o que temos nomeado processos de deseduca\u00e7\u00e3o, no qual compreendemos as limita\u00e7\u00f5es dos nossos condicionamentos t\u00f3xicos e exploramos espa\u00e7os de transgress\u00e3o e emancipa\u00e7\u00e3o subjetiva.<\/p>\n<p>Elegemos a pornografia como ferramenta de puls\u00e3o criativa e o mercado porn\u00f4 como territ\u00f3rio de disputa. Uma vez que o porn\u00f4 tradicional das grandes produtoras ainda det\u00e9m o monop\u00f3lio financeiro do mercado pornogr\u00e1fico, agimos para que produ\u00e7\u00f5es dissidentes e desviantes se infiltrem e fa\u00e7am a economia desse nicho girar para al\u00e9m dos lugares hegem\u00f4nicos. Buscamos uma \u00e9tica, um modo de produ\u00e7\u00e3o e uma est\u00e9tica comprometidas com a reinven\u00e7\u00e3o e ressignifica\u00e7\u00e3o dos nossos pressupostos; nos interessa romper com a expectativa social constru\u00edda em rela\u00e7\u00e3o aos corpos e aos prazeres sexuais. Reconhecemos que a in\u00e9rcia de um espectro de desejo homogeneizado \u00e9 interessante ao mercado, pois isso traz estabilidade comercial, subjetiva e pol\u00edtica. Contudo, hoje os caminhos de distribui\u00e7\u00e3o de conte\u00fado est\u00e3o em expans\u00e3o; a internet banda larga e os dispositivos que permitem a produ\u00e7\u00e3o e consumo de conte\u00fado audiovisual est\u00e3o mais acess\u00edveis, impulsionando produ\u00e7\u00f5es independentes e facilitando a autorrepresenta\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de narrativas que at\u00e9 ent\u00e3o eram censuradas ou reprimidas. Enquanto produtorxs e consumidorxs, temos a possibilidade \u2013 e a responsabilidade \u2013 de escolher fomentar as produ\u00e7\u00f5es que consideramos urgentes. Sobre isso, Jup do Bairro diz:<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>\u00c9 importante a gente entender como criar novos imagin\u00e1rios, novas possibilidades de produ\u00e7\u00e3o, de manuten\u00e7\u00e3o, de como tornar nossas redes afetivas em redes efetivas e econ\u00f4micas. Acredito que n\u00f3s precisamos estar nos inscrevendo em editais, buscando dinheiro de qualquer outra maneira, mas a gente precisa criar uma rede de fomento autossustent\u00e1vel, precisamos pensar no futuro como uma extens\u00e3o do presente. <\/em><br \/>\n( BAIRRO, Jup do (2020))<\/p>\n<p>Acompanhando Jup do Bairro, para n\u00f3s \u00e9 fundamental valorizar as iniciativas que se criam para al\u00e9m da massifica\u00e7\u00e3o. Entendemos que existem ao menos dois caminhos para nos estabelecermos no mercado: negociar com o mainstream da pornografia, que segue sendo controlado pelo olhar do homem branco-cis-h\u00e9tero, ou criar novos segmentos econ\u00f4micos, atrav\u00e9s de pol\u00edticas de conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico para iniciativas que colaboram para transforma\u00e7\u00f5es sociais. Uma vez que um caminho n\u00e3o exclui o outro, optamos pela negocia\u00e7\u00e3o e pela adi\u00e7\u00e3o, a fim de fomentar vias onde pessoas dissidentes estejam presentes enquanto agentes produtores e consumidores e que o capital gire dentro das nossas comunidades. Esse \u00e9 um movimento necess\u00e1rio tanto no porn\u00f4 quanto na arte, na academia, na ci\u00eancia, na religi\u00e3o ou em qualquer outro campo em disputa. \u00c9 tempo de restitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Queremos pleitear espa\u00e7os no mercado da pornografia; afinal, entre o Pornhub e o OnlyFans, o trabalho sexual foi o primeiro a ser uberizado. O que o norte global nos d\u00e1 como op\u00e7\u00e3o \u00e9 vendermos nossos porn\u00f4s em seus grandes portais, desde que nos encaixemos em suas limita\u00e7\u00f5es \u2013 muitos n\u00e3o aceitam pr\u00e1ticas escatol\u00f3gicas, por exemplo. Ainda assim, o dinheiro gerado pelo nosso trabalho n\u00e3o nos \u00e9 repassado com facilidade e temos que nos desdobrar para encontrar formas de receber os valores. No fim, mesmo conquistando alguma autonomia, as din\u00e2micas do capital acabam produzindo mais concentra\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os de outro homem branco, cisg\u00eanero, h\u00e9tero e rico. \u00c9 ineg\u00e1vel, no entanto, que receber em d\u00f3lares pela venda de um v\u00eddeo possibilita um retorno financeiro maior. Talvez, reconhecendo o cheque-mate que o norte global nos coloca, podemos suspeitar do porqu\u00ea de existirem t\u00e3o poucas plataformas porn\u00f4 sul-americanas. Mas como modificar par\u00e2metros de mercado e criar novas possibilidades de circula\u00e7\u00e3o e venda de porn\u00f4 sudaka? Enquanto n\u00e3o temos uma resposta, seguimos trabalhando para construir possibilidades.<\/p>\n<p>Somos muitas pessoas trabalhando com pornografia de forma independente e s\u00e3o muitos os trabalhos potentes e comprometidos com a interseccionaliza\u00e7\u00e3o nas discuss\u00f5es de g\u00eanero, sexualidade, pornografia e trabalho sexual. Com a cria\u00e7\u00e3o da EdiyPorn, buscamos estabelecer parcerias com pessoas e outras produtoras comprometidas em tomar espa\u00e7os e criar fissuras habit\u00e1veis na pornografia. Estamos trabalhando em uma l\u00f3gica do afeto, do tes\u00e3o, do consentimento e da criatividade. Nossa plataforma online ediyporn.com tem o intuito de nos emancipar das armadilhas das grandes empresas e ter autonomia para circular produ\u00e7\u00f5es latino-americanas de modo acess\u00edvel para essa regi\u00e3o. O projeto vem ganhando forma por meio de parcerias e trocas, criadas em alian\u00e7as de corpas desviantes. Somos umas tantas que estamos fortalecendo essa rede de putaria pol\u00edtica sudaka e agradecemos a quem vem somando com a gente: Casa Cochina, Caba\u00e7a Produ\u00e7\u00f5es, Monstruosas, Beatriz Leite, Renata Torralba, Tormenta C\u00f3smica, Al\u00f3, Kupalua, Ren_ata.me, Wand Albuquerque, Lui Castanho, Cia Fundo Mundo, Haus of Binatto, Revista Her\u00e9tica, Coletivo Revolta, Marie Monteiro, Dee Dee, Toni M\u00e1rquez, Li\u00e1 Mars, Babi Felice, Pachaqueer, Patricinha Mentiroza, Prof\u00e2nia, Tais Lobo, Aquele M\u00e1rio, Juan Ejemplo, Laura Milano, Sailor N\u00e9bula, Alondra, Southiane, Pequeno Marginal, PigSlut, Xdemonique, Mazo Kinatapa, Mar, Erika Sarmet, Gabriel Bogossian, Gu Bonavita, Luluca L., Br_bottom, RedFord, KillPornStars, Bia Roman, Xplastic, Fa\u00edska, Orago, Bixa Puta, Beto C., Pierre Dog, Festa Dando, Revista Geni, Putas Con Tiempo, Viktor Shawer, Esponja, Pisci Bruja, Lu, Franclin Rocha, Ronaldo Serruya, Canaf\u00edstula, Biu Xa, Gabs Ambr\u00f2zia, Peluzoi, Angeli Cristie, Pichona, Miss Kass, \u00cdndio Maconheiro, Just.red, Keoparda, Cairo, Chubsaurus, Cuarenteners, Outrodudu, Marcos Visnadi, Franco Fonseca, Emanuel Joel, Pedro \u201cPepa\u201d Silva, Sara Polva, Yuri Tripodi, Camila Biau, Chris The Red, Sladka Ger\u00f4nimo, George Pedrosa, Bruna Gazoni, Natalia Barros, Vicente Martos, Vinicius Dantas, Uar\u00ea, Let\u00edcia Bassit, Carmen Faustino, Abhyiana, Zorra, Diego Ciarlariello, Paula da Silva, Aro Dodo, Iv\u00e1n Ign\u00e1cio, Dinamita Randon, Banda Fisiol\u00f3gica, Rene, Brisal\u00edcia, Henrique Ludg\u00e9rio, Rubini, Dinamita Randon, Ian Geike, Rosa Lumi, Calixto, Marisa Dantas, Pantynova.<\/p>\n<p><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong><\/p>\n<p><strong>_BIBLIOGRAFICAS <\/strong><\/p>\n<p>LEITE, Jana\u00edna (2020). Do que eu n\u00e3o sei sobre pornografia. Em: MARTINS, A. M., CARVALHO, H. W. e NETO B. (orgs.), Vulgar. S\u00e3o Paulo: Ed. do Autor.<\/p>\n<p>KURY, Bruna (2020). Desconstruir sem Fetichizar. Em: MARTINS, A. M., CARVALHO, H. W. e NETO B. (orgs.), Vulgar. S\u00e3o Paulo: Ed. do Autor.<\/p>\n<p>PERRA, Hija de (2014). Interpretaciones inmundas de como la Teoria Queer coloniza nuestro contexto sudaca, pobre, aspiracional y tercermundista, perturbando com nuevas construcciones gen\u00e9ricas a los humanos encantedos com la heteronorma. Santiago de Chile: Revista Punto G\u00e9nero N\u00ba4.<\/p>\n<p>POST-OP (2014). De placeres y monstruos: interrogantes en torno al posporno. Em: URKO, H. e SOL\u00c1, M. (orgs.); Transfeminismos: epistemes fricciones y flujos. Navarra: Txalaparta.<\/p>\n<p>ROLNIK, Suely. Esferas da Insurrei\u00e7\u00e3o &#8211; notas para uma vida n\u00e3o cafetinada. S\u00e3o Paulo: ed. n-1.<\/p>\n<p>SARMET, \u00c9rica. (2014). Po\u0301s-porno\u0302, disside\u0302ncia sexual e a situacio\u0301n cuir latino-americana: pontos de partida para o debate. Salvador: Revista Periodicus, Ed.1.<\/p>\n<p>VIDARTE, Paco (2007). \u00c9tica Marica. Barcelona: Egales.<\/p>\n<p><strong>_ONLINE<\/strong><\/p>\n<p>BAIRRO, Jup do (2020, nov.16). Mesa Arte e decolonialidade: novas perspectivas para o Brasil, realizada pelo Festival MixBrasil em 16 de novembro de 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=4ahls89XbfI&amp;list=PLY2bQK2ZUETlLJxUj5CvpIv1m8vs_S_je&amp;index=2&amp;ab_channel=FestivalMixBrasil<\/p>\n<p>EDIYPORN (2020). 69 anticolonial, troca-troca de entrevistas. Dispon\u00edvel em: monstruosas.milharal.org\/2020\/07\/13\/69anticolonial-um-troca-x-troca-entre-ediyporn-monstruosas\/<\/p>\n<p>HILTON, Erica (2020, nov.15). Discurso feito pelo seu Instagram no dia que saiu os resultados das elei\u00e7\u00f5es. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.instagram.com\/tv\/CHoqxpxnkDI\/<\/p>\n<p>KILOMBA, Grada (2020, nov.25). Conversa sobre Mem\u00f3rias da Planta\u00e7\u00e3o. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=2ez7e-JtgoA&amp;feature=youtu.be<\/p>\n<p>KURY, Bruna (2020, jun.26). Mesa Precisamos falar sobre corpos inquietos. Dispon\u00edvel em: www.youtube.com\/watch?v=LANmqmA_LII<\/p>\n<p>PACHAQUEER (2018). Rojo Pasi\u00f3n. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.ediyporn.com\/posts_diversos\/rojo-pasion\/<\/p>\n<p>PE\u00d1A, Guillermo Gomez (2005). En defensa del arte del performance. Dispon\u00edvel em: http:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?pid=S0104-71832005000200010&amp;script=sci_arttext#nt03. Se esse texto fosse mais recente, provavelmente a breve lista de Pe\u00f1a incluiria pessoas trans, gordas e com diversidade funcional.<\/p>\n<p>VON HUNTY, Rita (2020, nov.12). Estere\u00f3tipo. Dispon\u00edvel em https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=XeVqSnJC5Pg<\/p>\n<p><strong>_AUDIOVISUAIS<\/strong><\/p>\n<p>CAFF\u00c9, Eliana; CAFF\u00c9, Carla; AMARAL, Beto (2020). Para onde voam as feiticeiras. Aurora Filmes.<\/p>\n<p>VINAGRE, Gustavo (2020). Vil, M\u00e1. Avoa Filmes, Carneiro Verde Filmes.<\/p>\n<p>_SONORAS<\/p>\n<p>PROFANA, Ventura; PODESERDESLIGADO (2019). Resplandecente.<br \/>\nIDEM (2020). Vit\u00f3ria.<br \/>\nIDEM (2020). Eu n\u00e3o vou morrer.<\/p>\n<p>QUEBRADA, Linn da (2016). Pare Querida.<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p><strong>MINIBIO<\/strong><\/p>\n<p>EDIYPORN \u00e9 uma produtora de porn\u00f4 desviante que busca reinventar e arejar imagin\u00e1rios sexuais. Trabalhando a partir dos nossos desejos e investiga\u00e7\u00f5es de prazeres, corpos e tes\u00f5es, queremos mexer na l\u00f3gica de cria\u00e7\u00e3o e consumo de putaria. [ediyporn.com]<\/p>","protected":false},"featured_media":3522,"template":"","tags":[146,293,85],"class_list":["post-3518","posts_diversos","type-posts_diversos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","tag-educacao","tag-porno-desviante","tag-texto"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos\/3518","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/posts_diversos"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3522"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3518"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3518"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}