{"id":2795,"date":"2023-05-02T17:18:55","date_gmt":"2023-05-02T20:18:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ediyporn.com\/?post_type=posts_diversos&#038;p=2795"},"modified":"2026-02-23T19:08:21","modified_gmt":"2026-02-23T22:08:21","slug":"feminismo-e-bdsm-jogos-de-poder","status":"publish","type":"posts_diversos","link":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/posts_diversos\/feminismo-e-bdsm-jogos-de-poder\/","title":{"rendered":"Feminismo e BDSM: jogos de poder"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><strong>Feminismo e BDSM: jogos de poder<\/strong><br \/>\n1.1 BDSM: trocas de poder e prazer<\/p>\n<p><em>A partir de ent\u00e3o, todos ser\u00e3o percebidos no interior de um parentesco global<br \/>\ncom os loucos, como doentes do instinto sexual. Mas, tomando ao p\u00e9 da letra<br \/>\ntais discursos e contornando-os, vemos aparecer respostas em forma de<br \/>\ndesafio: est\u00e1 certo, n\u00f3s somos o que voc\u00eas dizem por natureza, pervers\u00e3o ou<br \/>\ndoen\u00e7a, como quiserem. E, se somos assim, sejamos assim e se voc\u00eas<br \/>\nquiserem saber o que n\u00f3s somos, n\u00f3s mesmos diremos, melhor que voc\u00eas.&#8221;<br \/>\n(FOUCAULT, 1985, p. 234)<\/em><\/p>\n<p>Para pensar o sexo atualmente \u00e9 preciso resgatar suas dimens\u00f5es hist\u00f3rica,<br \/>\npol\u00edtica e cultural. Nesse exerc\u00edcio, desde Foucault (1985) em sua Hist\u00f3ria da<br \/>\nSexualidade, mas n\u00e3o s\u00f3, o discurso sobre o sexo aparece como ferramenta de controle e<br \/>\na sexualidade como um dispositivo que sempre esteve em disputa de interesses<br \/>\n\u201cburgueses, brancos, heterossexuais e falocr\u00e1ticos\u201d (PEL\u00daCIO, \u00c1LVARO, 2013, p.1).<br \/>\nAssim, para entender o sadomasoquismo (e o BDSM), busquei a constru\u00e7\u00e3o desse<br \/>\nconceito e como tal termo tem explicado comportamentos e pr\u00e1ticas diferentes ao longo<br \/>\nda hist\u00f3ria.<br \/>\nA evolu\u00e7\u00e3o do termo sadomasoquismo foi estudada por Jorge Leite Junior<br \/>\n(2000). Segundo ele, o in\u00edcio do uso dos termos sadismo e masoquismo \u00e9 controverso, e<br \/>\nalguns ind\u00edcios atribuem o termo como cunhado pelo Dr. Krafft-Ebing, psiquiatra<br \/>\naustr\u00edaco estudioso das &#8220;sexualidades anormais&#8221;. As palavras foram pensadas a partir<br \/>\ndos nomes do Marqu\u00eas de Sade e de Sacher-Masoch, e terminaram por designar o<br \/>\npsicodiagn\u00f3stico dos comportamentos de sadismo, prazer em infligir dor, e<br \/>\nmasoquismo, prazer em sentir dor. Depois, sadomasoquista seria aquele\/a que sofre dos<br \/>\ndois males (LEITE J\u00daNIOR, 2000).<br \/>\nO Marqu\u00eas de Sade foi um escritor franc\u00eas de origem nobre que ganhou fama no<br \/>\ns\u00e9culo XVIII por sua vida desregrada, orgias e fantasias cru\u00e9is. As obras de Sade<br \/>\ntiveram como fundamentos a crueldade, a tortura e a dor relacionadas ao erotismo. \u00c9 de<br \/>\nseu nome que vem o que conhecemos por \u201csadismo\u201d \u2013 o prazer em causar dor. Seus<br \/>\nlivros, apesar de celebrarem a androginia, o travestismo e a bissexualidade, tem como<br \/>\ncaracter\u00edstica a submiss\u00e3o da mulher, a avers\u00e3o \u00e0 vagina e aos valores tidos como<br \/>\nfemininos (LEITE JUNIOR, 2000).<br \/>\nLeopold Von Sacher-Masoch foi outro escritor europeu cujo nome deu origem<br \/>\nao termo masoquismo. Seu livro mais famoso, \u201cA V\u00eanus das Peles\u201d, reflete seu<br \/>\ninteresse por mulheres dominadoras num enredo baseado em sua vida. Para ele, homens<br \/>\ndeveriam se submeter \u00e0s mulheres, superiores e dominadoras por natureza. Ele ainda era<br \/>\nvivo quando o Dr. Krafft-Ebing, numa persegui\u00e7\u00e3o aos ditos pervertidos, nomeou de<br \/>\nmasoquismo uma variante da algolagnia &#8211; o prazer na dor f\u00edsica.<br \/>\nKrafft-Ebing percebeu que muitos dos casos de pervers\u00e3o n\u00e3o estavam<br \/>\ndiretamente ligados \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o f\u00edsica da dor, mas \u00e0 atitude psicol\u00f3gica. Em seu livro<br \/>\nPsychopathia Sexualis (1907), sadismo, masoquismo, fetichismo e antipatia sexual<br \/>\naparecem como paraestesias, uma das categorias de neuroses sexuais cerebrais. O<br \/>\nsadismo seria a apresenta\u00e7\u00e3o extrema e patol\u00f3gica de uma tend\u00eancia masculina \u00e0<br \/>\ndomina\u00e7\u00e3o. O masoquismo, a exacerba\u00e7\u00e3o da submiss\u00e3o feminina. Como seus casos<br \/>\nn\u00e3o corroboravam com essa hip\u00f3tese, ele acreditou que homens \u201cmasoquistas\u201d<br \/>\napresentavam o in\u00edcio da \u201cantipatia sexual\u201d e eram \u201cparcialmente efeminados\u201d.<br \/>\nAinda no s\u00e9culo XIX, houve a import\u00e2ncia dos estudos de Freud sobre histeria<br \/>\n(a \u201cdoen\u00e7a do \u00fatero\u201d), sobre sexualidade infantil e sobre o inconsciente. Suas teorias<br \/>\natenuavam os limites entre \u201cs\u00e3o\u201d e \u201cdoente sexual\u201d. Ampliando vis\u00f5es estritamente<br \/>\nbiol\u00f3gicas, Freud procurou explicar as \u201caberra\u00e7\u00f5es\u201d dos comportamentos sexuais pela<br \/>\nvia psicol\u00f3gica. O sadismo e o masoquismo foram enquadrados como \u201cFixa\u00e7\u00f5es de<br \/>\nalvos sexuais provis\u00f3rios\u201d assim como as \u201ctransgress\u00f5es anat\u00f4micas\u201d (pr\u00e1ticas sexuais<br \/>\ncom partes do corpo que n\u00e3o os tais genitais) e as demoras no que precedia o ato sexual<br \/>\n(a penetra\u00e7\u00e3o). Freud colocou que sadismo e masoquismo eram duas manifesta\u00e7\u00f5es de<br \/>\numa mesma pervers\u00e3o. As formas ativa e passiva da tal pervers\u00e3o, encontravam-se na<br \/>\nmesma pessoa, advinham de fonte \u00fanica. \u00c9 desse pensamento que a uni\u00e3o dos termos<br \/>\ncria uma nova categoria de pervertidos: sadomasoquistas. (LEITE JUNIOR, 2000).<br \/>\nA import\u00e2ncia dessa hist\u00f3ria cl\u00e1ssica sobre o sadomasoquismo est\u00e1,<br \/>\nprincipalmente, em ajudar a entender a constru\u00e7\u00e3o das vis\u00f5es negativas sobre essa<br \/>\nsubcultura e seus adeptos na nossa sociedade. Foi no discurso da ci\u00eancia psicol\u00f3gica,<br \/>\nt\u00e3o interessada nos enlaces entre dor e prazer, que o SM ganhou car\u00e1ter de patologia e<br \/>\npervers\u00e3o. Mas, os pervertidos sadomasoquistas desses autores, j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os BDSMers3<br \/>\nda atualidade.<\/p>\n<p><em>A cultura sadomasoquista formou-se gra\u00e7a \u00e0 resist\u00eancia de indiv\u00edduos que<br \/>\nn\u00e3o quiseram ser patologizados &#8211; e muito menos criminalizados &#8211; forjando<br \/>\nassim um \u201cestilo de ser\u201d que se diferencia tanto daqueles de sexualidade<br \/>\n\u201cnormal\u201d, quanto dos assassinos e doentes das ci\u00eancias da psique. (LEITE<br \/>\nJUNIOR, 2000, p.97)<\/em><\/p>\n<p>Com inten\u00e7\u00e3o de afastar as ideias patologizantes, movimentos da chamada<br \/>\nLeather Culture (Cultura do Couro) passaram a incluir no SM, as letras B e D,<br \/>\nreferentes ao Bondage e \u00e0 Disciplina e Domina\u00e7\u00e3o, no par D\/s da sigla. E novos<br \/>\nsentidos foram sendo constru\u00eddos sobre a atividade pelos movimentos feministas, gays e<br \/>\nl\u00e9sbicos norte-americanos.<\/p>\n<p><em>Leather \u00e9 uma categoria mais ampla que inclui homens gays que praticam o<br \/>\nsadomasoquismo, homens gays que fazem a penetra\u00e7\u00e3o anal com o punho,<br \/>\nhomens gays que s\u00e3o fetichistas, e homens gays que s\u00e3o m\u00e1sculos e preferem<br \/>\nparceiros masculinos. O couro (leather) \u00e9 um s\u00edmbolo polivalente que tem<br \/>\nsentidos diferentes para diferentes indiv\u00edduos e grupos nessas comunidades.<br \/>\nEntre os homens gays, o leather e sua linguagem masculina foram a principal<br \/>\nbase para o sadomasoquismo gay masculino desde o final da d\u00e9cada de 1940.<br \/>\nOutros grupos articulam desejos similares em diferentes constela\u00e7\u00f5es sociais<br \/>\ne simb\u00f3licas. Por exemplo, o sadomasoquismo heterossexual, durante quase<br \/>\ntodo esse per\u00edodo, n\u00e3o estava organizado em torno do s\u00edmbolo do leather,<br \/>\nlinguagens masculinas ou territ\u00f3rios urbanos. \u201cLeather\u201d \u00e9 uma s\u00edntese<br \/>\nhist\u00f3rica e culturalmente espec\u00edfica na qual determinadas formas de desejo<br \/>\nentre homens gays foram organizadas e estruturadas socialmente. [Gayle<br \/>\nRubin em entrevista a Judith Butler] (RUBIN; BUTLER, 2003, p. 202)<\/em><\/p>\n<p>As sa\u00eddas do arm\u00e1rio foram crescendo. Declararam-se adeptos da cultura SM<br \/>\npessoas como Foucault; e feministas como Gayle Rubin e Pat Califia advogaram pela<br \/>\ncoer\u00eancia entre feminismo e SM (vamos ver mais sobre isso no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo).<br \/>\nMargot Weiss (2011) observava a recente circula\u00e7\u00e3o do termo BDSM no meio e aponta<br \/>\nque Reiersol e Skeid (2011) datam de 1991 o surgimento do termo que abarca BD +<br \/>\nSM, S\/M e S&amp;M como termos que serviriam para distanciar o estigma social produzido<br \/>\nextensamente pelos estudos patologizantes. Ela tamb\u00e9m apontou a prefer\u00eancia da<br \/>\ncomunidade pelos termos BDSM, SM e S\/M. Utilizarei essa nomea\u00e7\u00e3o, entendendo que<br \/>\nos outros termos tamb\u00e9m fazem parte do repert\u00f3rio desse tema e nem sempre est\u00e3o<br \/>\nligados a vis\u00f5es patologizantes. Usarei tamb\u00e9m BDSMer (WEISS, 2011) para nomear<br \/>\naquelas pessoas que s\u00e3o adeptas da subcultura BDSM.<br \/>\nNo Brasil, Wilma Azevedo, Henfil e Glauco Mattoso escreveram autobiografias<br \/>\nfetichistas reais e\/ou ficcionais nos anos 1980. O &#8220;Manual do pod\u00f3latra amador&#8221; de<br \/>\nGlauco Mattoso (1986) tem em seu enredo a podolatria, fetiche por p\u00e9s, e tamb\u00e9m<br \/>\nmarca a import\u00e2ncia das refer\u00eancias estrangeiras para o que vinha se constituindo aqui<br \/>\ncomo BDSM. Wilma Azevedo em seus textos &#8220;Sadomasoquismo sem medo&#8221;, &#8220;A v\u00eanus<br \/>\nde cetim&#8221; e &#8220;Tormentos deliciosos&#8221; utilizou e divulgou o termo &#8220;sadomasoquismo<br \/>\ner\u00f3tico&#8221;. Com seus escritos ela tamb\u00e9m evidenciou a rede de comunica\u00e7\u00e3o fetichista que<br \/>\nexistia via classificados dos jornais, e que atualmente migraram para a internet. O<br \/>\ncartunista Henfil \u00e9 considerado a primeira pessoa p\u00fablica a assumir a posi\u00e7\u00e3o SM no<br \/>\nBrasil. Ele afirmou em entrevistas e palestras sobre refletir a si mesmo em seu<br \/>\npersonagem Fradin, o masoquista. (FACCHINI; MACHADO, 2013)<br \/>\nBDSM \u00e9 uma sigla que se refere \u00e0 subcultura interessada em trocas er\u00f3ticas de<br \/>\npoder e experimenta\u00e7\u00f5es com a dor. O acr\u00f4nimo BDSM \u00e9 formado por pares de letras<br \/>\nque significam pr\u00e1ticas espec\u00edficas, apesar de interligadas: BD, DS, SM. Apesar de<br \/>\natividades similares ao BDSM contempor\u00e2neo existirem em outros per\u00edodos hist\u00f3ricos e<br \/>\ndiversas culturas, o &#8220;fen\u00f4meno&#8221; que denominamos BDSM \u00e9 localizado nas sociedades<br \/>\ncapitalistas industrializadas (WEISS, 2011). Nesse contexto, todas as atividades s\u00e3o<br \/>\npressupostamente negociadas, consensuadas e consentidas. Tentarei explicitar alguns<br \/>\naspectos de cada uma dessas varia\u00e7\u00f5es, entendendo que no campo do prazer e da<br \/>\ncriatividade toda vis\u00e3o \u00e9 reducionista e que as fronteiras entre BDSM e seu &#8220;oposto&#8221;, o<br \/>\nsexo baunilha, s\u00e3o feitas de linhas fr\u00e1geis.<br \/>\nNa din\u00e2mica da cena os corpos ocupam a posi\u00e7\u00e3o pr\u00e9-estabelecida em acordo:<br \/>\nTop ou bottom. Top \u00e9 o corpo que est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o &#8220;superior&#8221;, e bottom, &#8220;inferior&#8221;. Essa<br \/>\ndenomina\u00e7\u00e3o ajuda a afastar tanto a ideia de &#8220;atividade x passividade&#8221;, como tamb\u00e9m o<br \/>\nestere\u00f3tipo de que em toda cena BDSM existe a din\u00e2mica de domina\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o.<br \/>\nEsses termos tamb\u00e9m s\u00e3o usados para designar uma &#8220;identidade&#8221; no meio, acrescidos da<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o de Switcher, aquele corpo que ora pode ser Top, ora bottom. Essas palavras,<br \/>\nassim como muitas outras encontradas no universo BDSM est\u00e3o em ingl\u00eas e suas<br \/>\ntradu\u00e7\u00f5es nem sempre existem, como no caso Top e bottom, algumas vezes a tradu\u00e7\u00e3o<br \/>\npode gerar confus\u00e3o entre palavras ou os termos em portugu\u00eas n\u00e3o s\u00e3o populares no<br \/>\nmeio. Os espa\u00e7os de intera\u00e7\u00e3o social presenciais como grupos, festas e clubes associamse<br \/>\n\u00e0 ferramenta da internet que est\u00e1 recheada de sites, blogs, salas de bate-papo, listas de<br \/>\ndiscuss\u00e3o e f\u00f3runs, grupos e comunidades em redes sociais digitais compondo o que \u00e9<br \/>\nchamado de &#8220;meio&#8221;, &#8220;comunidade&#8221; ou eventualmente &#8220;movimento&#8221; (FACCHINI; MACHADO, 2013).<\/p>\n<p><em>Os termos SM e BDSM s\u00e3o usados de forma intercambi\u00e1vel para denotar uma<br \/>\ncomunidade diversa que inclui aficionados por amarra\u00e7\u00e3o,<br \/>\ndomina\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o, dor ou sensation play (cenas sobre sensa\u00e7\u00f5es), troca<br \/>\nde poder, leathersex (sexo com elementos de couro), role-playing e fetiches.<br \/>\nA comunidade abra\u00e7a uma larga variedade de pr\u00e1ticas, de tipos de<br \/>\nrelacionamentos, e de pap\u00e9is, que v\u00e3o desde as pr\u00e1ticas mais comuns (por<br \/>\nexemplo, amarra\u00e7\u00e3o por cordas ou chicoteamentos), para as menos comuns<br \/>\n(cenas com o tema do incesto ou cenas nos quais um dos praticantes imitam<br \/>\num p\u00f4nei), e ainda assim todas essas varia\u00e7\u00f5es s\u00e3o colocadas sob o termo<br \/>\nguarda-chuva do BDSM (WEISS, 2011, p. VII, traduzido)<\/em><\/p>\n<p>Bondage se refere \u00e0 atividade de amarrar, imobilizar, limitar o movimento de um<br \/>\ncorpo. \u00c9 feito com diversos materiais como cordas, faixas, fitas colantes, pl\u00e1stico filme,<br \/>\ncorrentes etc. H\u00e1 um componente est\u00e9tico nas amarra\u00e7\u00f5es, que podem acontecer em<br \/>\nvariadas posi\u00e7\u00f5es, inclusive com a inten\u00e7\u00e3o de suspender o corpo, como nas<br \/>\nperformances abertas nas quais as pessoas ficam penduradas mais ou menos im\u00f3veis em<br \/>\n\u00e1rvores. Pode ou n\u00e3o estar no contexto da domina\u00e7\u00e3o, assim como promover dor. Essas<br \/>\namarra\u00e7\u00f5es podem ser a finalidade de uma cena ou estar associada a alguma outra<br \/>\npr\u00e1tica como a provoca\u00e7\u00e3o de sensa\u00e7\u00f5es na pele, carinhos, chicotadas, tapas,<br \/>\npenetra\u00e7\u00f5es e tantas possibilidades quanto a imagina\u00e7\u00e3o permitir. Uma variante famosa<br \/>\ndo bondage \u00e9 a pr\u00e1tica japonesa do shibari, as amarra\u00e7\u00f5es com cordas. B\/D se referem<br \/>\nao par Bondage e Disciplina. A disciplina \u00e9 um jogo no qual a pessoa que est\u00e1 na<br \/>\nposi\u00e7\u00e3o top, \u201cdisciplina\u201d algum comportamento na outra. Pode ou n\u00e3o fazer uso do<br \/>\nBondage, assim como de castigos f\u00edsicos em geral. O referencial Top na pr\u00e1tica da<br \/>\ndisciplina \u00e9 a Tamer (domadora) e a bottom \u00e9 brat (traduzido como &#8220;pirralho&#8221; para o<br \/>\nportugu\u00eas, mais uma das quest\u00f5es de tradu\u00e7\u00e3o).<br \/>\nO par D\/s, domina\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, se refere a uma rela\u00e7\u00e3o de troca de poder,<br \/>\numa din\u00e2mica relacional que pode acontecer por uma sess\u00e3o, um dia ou uma vida<br \/>\ninteira, a partir do acordo. Algu\u00e9m domina, algu\u00e9m se submete. Top e bottom, Domme<br \/>\n(ou Dom) e sub, dominadora e submissa. De forma mais ampla que as pr\u00e1ticas<br \/>\nanteriores, esse \u00e9 o jogo mais conhecido do BDSM. Designa uma rela\u00e7\u00e3o, enquanto as<br \/>\noutras letras referem-se a pr\u00e1ticas corporais (pontuais ou n\u00e3o). \u00c9 uma atividade<br \/>\nritual\u00edstica, perform\u00e1tica, na qual h\u00e1 um jogo de poder relacional em voga, lida mais<br \/>\ncom sentimentos do que necessariamente com sensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e se expressa por meio<br \/>\nde uma linguagem verbal e corporal que performa poder e submiss\u00e3o.<br \/>\nA D\/s acontece no n\u00edvel da rela\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pressup\u00f5e por si nenhum tipo de<br \/>\ncontato f\u00edsico. A domina\u00e7\u00e3o pode ou n\u00e3o estar associada a castigos f\u00edsicos e invoca<br \/>\nenredos e narrativas das mais variadas, contextualizando a cena. S\u00e3o enredos poss\u00edveis<br \/>\nDaddy\/little girl (ou boy), pet\/dono, escrava\/senhora, mestre\/servo, rainha\/s\u00fadito. N\u00e3o<br \/>\ns\u00e3o raras D\/s online, como mostra o epis\u00f3dio 1 da s\u00e9rie Dark Net, da Netflix. No<br \/>\nepis\u00f3dio a personagem Kristie domina Drew por meio de diversos aplicativos que a<br \/>\najudam a controlar v\u00e1rias \u00e1reas da vida dele, como alimenta\u00e7\u00e3o e exerc\u00edcios f\u00edsicos no<br \/>\nenredo \u201cDominate and her pet\u201d.<br \/>\nSadismo e masoquismo s\u00e3o termos que trazem a ideia da dor no corpo. A<br \/>\nbottom, o corpo masoquista, interessa se entregar aos prazeres de sentir dor, de conhecer<br \/>\nos limites da pele. A top s\u00e1dica se diverte em infligir essa dor, assistir o outro corpo<br \/>\nreconhecer seus limites, a rea\u00e7\u00e3o da pele ao sentir. \u00c9 um termo de ordem pr\u00e1tica, n\u00e3o<br \/>\ndiz respeito uma rela\u00e7\u00e3o, \u00e9 sobre uma atividade que acontece aqui e agora e os pares<br \/>\nn\u00e3o tem poder relacional sobre o outro. Diversas pr\u00e1ticas s\u00e3o inclu\u00eddas aqui, como os<br \/>\nespancamentos, as chicotadas, os tapas, o uso de objetos perfuro-cortantes, os<br \/>\nenforcamentos e muitas outras. Da mesma forma que as anteriores, pode ou n\u00e3o estar<br \/>\nligada \u00e0 domina\u00e7\u00e3o ou performar determinado enredo. Apesar de a Top ter controle da<br \/>\npr\u00e1tica, a baliza do que ser\u00e1 feito e dos limites \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o da bottom. \u201cQuem<br \/>\n\u201ccomanda\u201d toda a cena \u00e9 o corpo masoquista. Ele \u00e9 o foco central, pois seus limites<br \/>\nser\u00e3o os norteadores de toda rela\u00e7\u00e3o.\u201d (LEITE JUNIOR, 2000, p.91)<br \/>\nEstas trocas de poder se organizam em pelo menos tr\u00eas possibilidades: EPE<br \/>\n(Erotic Power Exchange), PPE (Parcial power exchange), TPE (Total power exchange).<br \/>\nA primeira se refere \u00e0s rela\u00e7\u00f5es na qual a D\/s apenas de aplica durante uma cena<br \/>\ner\u00f3tica, enquanto a segunda ocorre em momentos al\u00e9m da cena, mas ainda restritos ou<br \/>\npontuais, com come\u00e7o e fim. A TPE \u00e9 uma din\u00e2mica na qual a troca de poder ocorre<br \/>\nconstantemente, os pap\u00e9is s\u00e3o fixos e a dupla acorda estar &#8220;24\/7&#8221; (24hrs por dia e sete<br \/>\ndias por semana) ocupando os lugares de Top ou bottom, seja ou n\u00e3o em contexto<br \/>\n&#8220;sexual&#8221;. Nesse tipo de rela\u00e7\u00e3o pode acontecer de os pares decidirem por protocolos de<br \/>\nconsentimento que abrem m\u00e3o da &#8220;palavra de seguran\u00e7a&#8221;, por exemplo, ou ter mais de<br \/>\num protocolo.<br \/>\nUma sess\u00e3o BDSM pode ser profissional, casual ou em algum tipo de<br \/>\nrelacionamento. As pessoas se encontram para praticar em festas tem\u00e1ticas, em clubes,<br \/>\nnas chamadas masmorras mas tamb\u00e9m nas suas casas. Algumas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam por<br \/>\nobjetivo ter sess\u00f5es BDSM, outras tem o BDSM como uma atividade espor\u00e1dica. Nem<br \/>\nsempre existem liga\u00e7\u00f5es afetivas ou relacionamentos entre as praticantes. Algumas<br \/>\npessoas usam como mais uma \u201cferramenta\u201d dentro de relacionamentos afetivo-sexuais,<br \/>\noutras t\u00eam o BDSM como principal fonte de prazer &#8211; associando em diferentes graus<br \/>\nBDSM ao \u201csexo\u201d. O termo &#8220;baunilha&#8221; se op\u00f5e \u00e0 ideia de BDSM, \u00e9 um termo que<br \/>\nemerge do campo e designa o sexo convencional, o n\u00e3o-BDSM, assim como pessoas<br \/>\nque n\u00e3o partilham a vida fetichista, rela\u00e7\u00f5es fora desse \u00e2mbito e o eixo da vida cotidiana<br \/>\n&#8220;fora da cena&#8221;. Baunilha \u00e9 o sabor de sorvete mais b\u00e1sico (h\u00e1 tamb\u00e9m pontua\u00e7\u00f5es sobre<br \/>\nser o sorvete &#8220;sem-gra\u00e7a&#8221;, mas isso \u00e9 outro assunto).<br \/>\nEssas denomina\u00e7\u00f5es s\u00e3o amplas e agrupam uma s\u00e9rie de prazeres e pr\u00e1ticas. No<br \/>\nBDSM os detalhes de cada fetiche se fazem importantes para a composi\u00e7\u00e3o de uma cena<br \/>\ne para a negocia\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, conhecimento de poss\u00edveis riscos, consenso e<br \/>\nconsentimento. A no\u00e7\u00e3o de consentimento \u00e9 mais complexa do que \u201csim\u201d ou \u201cn\u00e3o\u201d. Na<br \/>\ncena, podem ser acordados detalhes em maior ou menor grau. Por exemplo, posso<br \/>\nquerer um \u201cspanking\u201d [espancamento] com cinto mas n\u00e3o com as m\u00e3os. E esses limites,<br \/>\nem cena, s\u00e3o apontados a partir da &#8220;palavra de seguran\u00e7a&#8221; (ou safeword) dentre outras<br \/>\ndin\u00e2micas.<br \/>\nA palavra de seguran\u00e7a ou safeword \u00e9 um artif\u00edcio que pausa a cena. \u00c9 uma<br \/>\npalavra combinada antes da sess\u00e3o que, quando usada, interrompe o jogo seja por<br \/>\ndesconforto, dor, ou qualquer efeito. Durante atividades em que uma das partes esteja<br \/>\nimpossibilitada de falar podem ser usados gestos (safegesture), sinos, ou qualquer sinal<br \/>\nde f\u00e1cil acesso. A proposta \u00e9 de que a palavra de seguran\u00e7a faz parte do jogo, ajudando<br \/>\nno mapeamento da sensa\u00e7\u00f5es de prazer, e dos limites; por isso \u00e9 um artif\u00edcio que deve<br \/>\npoder ser usado com conforto e sem constrangimento. A safeword serve para que<br \/>\n&#8220;N\u00e3o&#8221;, &#8220;Pare&#8221; etc sejam incorporadas ao jogo e isso n\u00e3o deixe brechas na garantia de<br \/>\num jogo mutuamente prazeroso. Da mesma forma, um sistema de safewords pode<br \/>\nsignificar pare\/diminua a intensidade\/aumente a intensidade como a tr\u00edade conhecida<br \/>\nvermelho, amarelo e verde.<br \/>\nA safeword\/palavra de seguran\u00e7a, os contratos, assim como a base SSC e os<br \/>\nprotocolos de consentimento s\u00e3o estrat\u00e9gias usadas no contexto BDSM para afastar as<br \/>\npossibilidades de viol\u00eancia e abuso. O abuso est\u00e1 presente no meio BDSM da mesma<br \/>\nforma que se presentifica no contexto da sexualidade em geral. Me chamou os olhos ter<br \/>\nencontrado tanta preocupa\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o aos casos de abuso dentre os grupos BDSM e a<br \/>\nimport\u00e2ncia entre as pessoas adeptas tanto de puni\u00e7\u00e3o, em forma de hostiliza\u00e7\u00e3o do<br \/>\nabusador, quanto de in\u00fameras estrat\u00e9gias de preven\u00e7\u00e3o da eterna amea\u00e7a da viol\u00eancia.<br \/>\nSSC \u00e9 uma base de consentimento. S\u00e3o, Seguro e Consensual. Ou seja, estando<br \/>\ndentro desse referencial a pr\u00e1tica est\u00e1 &#8220;afastada&#8221; de poss\u00edveis riscos como les\u00f5es<br \/>\nindesejadas ou &#8220;viol\u00eancia&#8221; e abuso sexual. SSC \u00e9 tida como a sigla m\u00e1xima do BDSM,<br \/>\no princ\u00edpio, um pilar. Foi cunhada pelo grupo New York\u2019s Gay Male S\/M Activists<br \/>\n(GMSMA) como afirma David Stein (2002), submisso e fundador do GMSMA, por<br \/>\nvolta de 1983. Esse grupo era uma &#8220;organiza\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos de homens gays em<br \/>\nNova Iorque que est\u00e3o seriamente interessados em S\/M s\u00e3o, seguro e consensual&#8221;<br \/>\n(STEIN, 2002, p.1, tradu\u00e7\u00e3o livre). A ideia \u00e9 baseada em &#8220;Safe and sane&#8221;, uma<br \/>\nexpress\u00e3o popular na \u00e9poca, e na necessidade de promover a consensualidade. Pr\u00f3s e<br \/>\ncontras do uso do SSC assim como de propostas alternativas foram debatidas por<br \/>\nrepresentantes da comunidade SM\/Leather na prepara\u00e7\u00e3o para a March on Washington<br \/>\nfor Lesbian and Gay Rights (Marcha pelos direitos Gays e L\u00e9sbicos de Washington) em<br \/>\n1987.<br \/>\nEsse &#8220;fundamento&#8221; funciona em determinados discursos como elemento<br \/>\nfronteiri\u00e7o entre o que alguns consideram &#8220;ser BDSM&#8221; ou &#8220;n\u00e3o ser BDSM&#8221;, deixando<br \/>\ncircunscritas \u00e0 subcultura somente as pr\u00e1ticas que respeitam a sigla e considerando<br \/>\ncomo &#8220;viol\u00eancia&#8221; os atos que n\u00e3o consideraram esse referencial. \u00c9 por meio do SSC que<br \/>\nmuitos argumentos anti-BDSM s\u00e3o rebatidos e ela se tornou um &#8220;padr\u00e3o m\u00ednimo para<br \/>\nS\/M eticamente defens\u00e1vel&#8221; (STEIN, 2002, p. 4). Afinal, se \u00e9 s\u00e3o, seguro e consensual,<br \/>\nque mal tem?<br \/>\nEm 1983, o GMSMA&#8217;s se viu diante da quest\u00e3o entre se abrir para lidar com<br \/>\ntodas as formas que o SM era vivido, incluindo serem atacados pela m\u00eddia quando<br \/>\nacontecesse qualquer den\u00fancia casos de &#8220;sadomasoquismo&#8221; abusivo; ou limitar o<br \/>\ncampo, demonstrando o interesse e a defesa apenas no SM S\u00e3o, Seguro e Consensual.<br \/>\nLonge de tentar inventar limites para a aceitabilidade das atividades, a tentativa foi de<br \/>\ndiferenciar o bondage, a tortura, a dor infligida a parceiros dispostos e para satisfa\u00e7\u00e3o<br \/>\nm\u00fatua, do abuso e da coer\u00e7\u00e3o a v\u00edtimas involunt\u00e1rias. Dessa forma o grupo tentava<br \/>\nescapar das obje\u00e7\u00f5es ao SM &#8211; demonstrando que o constante policiamento a essa<br \/>\ncomunidade n\u00e3o passava de fobia sexual, o refor\u00e7o de tabus sobre o sexo e as<br \/>\nexpress\u00f5es de sexualidade. Stein (2002) ainda mostra a import\u00e2ncia do SSC para os<br \/>\nmembros da comunidade que, internalizando os preconceitos acreditavam que seus<br \/>\nprazeres os tornavam diretamente v\u00edtimas ou predadores sexuais.<br \/>\nA estrat\u00e9gia do SSC foi, essencialmente, uma articula\u00e7\u00e3o da linguagem que<br \/>\ninseriu no vocabul\u00e1rio sexual os termos do SM consensual. Os preconceitos<br \/>\ninternalizados que Stein mostra tem a ver principalmente com a falta de linguagem que<br \/>\ndiferencie a experi\u00eancia de satisfa\u00e7\u00e3o m\u00fatua do SM da gram\u00e1tica da viol\u00eancia, do abuso<br \/>\na partir da qual o SM estava sendo pensado. Hoje em dia, o SSC tem sido tamb\u00e9m um<br \/>\ncerto obst\u00e1culo em avan\u00e7ar os debates sobre a necessidade do di\u00e1logo, do<br \/>\ncompartilhamento de fantasias, do estudo e do autoconhecimento para tais atividades.<br \/>\nNenhum protocolo ou base, como o SSC, (nem a palavra de seguran\u00e7a), por si s\u00f3,<br \/>\npodem impedir uma experi\u00eancia ruim ou um abuso, mas elas apontam caminhos por<br \/>\nonde uma boa experi\u00eancia pode come\u00e7ar.<br \/>\nEsse &#8220;fundamento&#8221; funciona em determinados discursos como elemento<br \/>\nfronteiri\u00e7o entre o que alguns consideram &#8220;ser BDSM&#8221; ou &#8220;n\u00e3o ser BDSM&#8221;, deixando<br \/>\ncircunscritas \u00e0 subcultura somente as pr\u00e1ticas que respeitam a sigla e considerando<br \/>\ncomo &#8220;viol\u00eancia&#8221; os atos que n\u00e3o consideraram esse referencial. \u00c9 por meio do SSC que<br \/>\nmuitos argumentos anti-BDSM s\u00e3o rebatidos e ela se tornou um &#8220;padr\u00e3o m\u00ednimo para<br \/>\nS\/M eticamente defens\u00e1vel&#8221; (STEIN, 2002, p. 4). Afinal, se \u00e9 s\u00e3o, seguro e consensual,<br \/>\nque mal tem?<br \/>\nMeus inc\u00f4modos com a sigla come\u00e7aram t\u00e3o logo me interessei pelas<br \/>\npsicologias cr\u00edticas. S\u00e3o, se refere ao estado mental de cada corpa, seu bem-estar e<br \/>\nsitua\u00e7\u00e3o emocional, incluindo as altera\u00e7\u00f5es por consumo de \u00e1lcool e outras drogas.<br \/>\nNesse pensamento, uma sess\u00e3o BDSM estaria infligindo o pilar tido como b\u00e1sico se<br \/>\nfosse precedida por exemplo, de algumas ta\u00e7as de vinho, ou se alguma das pessoas<br \/>\nenvolvidas tiverem diagn\u00f3sticos psiqui\u00e1tricos. Al\u00e9m disso, sanidade \u00e9 um conceito<br \/>\nperigoso, afinal \u00e9 por meio dessa divis\u00e3o entre s\u00e3os e doentes que BDSMers, tem sido<br \/>\ncolocadas no eixo das patologias psi e da n\u00e3o-normalidade &#8211; assim como aconteceu e<br \/>\nacontece com algumas identidades sexuais e de g\u00eanero. N\u00e3o \u00e9 estrat\u00e9gico tentarmos<br \/>\ncriar um limite de &#8220;insanidade&#8221; quer seja em pessoas, quer seja classificando as pr\u00e1ticas.<br \/>\nUma base de consentimento precisa, antes de tudo, funcionar para aquelas sujeitas, estar<br \/>\nconsonante com os desejos e limites das praticantes, com seus estilos de vida e formas<br \/>\nde pensar o prazer. N\u00e3o parece ser eficiente seguir um protocolo de consentimento que<br \/>\nn\u00e3o dialoga com todas as possibilidades de contexto mais amplo ou coloca uma sess\u00e3o<br \/>\nBDSM em um espa\u00e7o imagin\u00e1rio fora do cotidiano.<br \/>\nSeguran\u00e7a tamb\u00e9m era um termo que me deixava inquieta. Qual a no\u00e7\u00e3o de<br \/>\nseguran\u00e7a? E, se considerarmos &#8220;excluir riscos de vida\/les\u00e3o&#8221;, j\u00e1 estariam exclu\u00eddas<br \/>\npr\u00e1ticas como knifeplay, needleplay, eletroestimula\u00e7\u00e3o entre muitas outras, afinal, o<br \/>\nrisco \u00e9 impl\u00edcito em algumas pr\u00e1ticas e inexor\u00e1veis em outras. Assim como \u00e9 no<br \/>\nbareback (fetiche acerca da penetra\u00e7\u00e3o sem preservativo), &#8220;transar sem camisinha&#8221;, ou<br \/>\npular de bungee jump. Risco, algumas vezes, \u00e9 o elemento central do ato, motiva\u00e7\u00e3o<br \/>\npara os desejos e provocador do tes\u00e3o. Como assumir uma base de seguran\u00e7a em uma<br \/>\npr\u00e1tica que joga com riscos? Nesse contexto, falar em garantia de seguran\u00e7a aparenta<br \/>\nmais mascarar riscos do que dialog\u00e1-los, e a partir da partilha de informa\u00e7\u00f5es, pensar<br \/>\nem redu\u00e7\u00e3o. H\u00e1 ainda outra reflex\u00e3o importante, em casos de falha na seguran\u00e7a, \u00e9<br \/>\ncomum a pessoa que est\u00e1 em posi\u00e7\u00e3o Top ser responsabilizada por acontecimentos.<br \/>\nMas, dentro do processo de acordo dos atos a serem performados, tanto Bottom quanto<br \/>\nTop t\u00eam responsabilidades &#8211; inclusive porque esse jogo deve come\u00e7ar em posi\u00e7\u00f5es de<br \/>\nequidade, di\u00e1logo e consenso.<br \/>\nO consentimento tem sido visto no eixo das sexualidades e dos direitos sexuais<br \/>\ncomo a base que legitima as pr\u00e1ticas sexuais. O debate sobre prazer e perigo nas<br \/>\nviv\u00eancias sexuais, tem, segundo Filomena Gregori (2014) se concentrado nas no\u00e7\u00f5es de<br \/>\nconsentimento e vulnerabilidade, em forma de pr\u00e1ticas e discursos que se concentram<br \/>\nem evidenciar consentimento entre corpos envolvidos no ato e, na vulnerabilidade, a<br \/>\npartir da presun\u00e7\u00e3o de suas capacidades e incapacidades de consentir. Atualmente, a<br \/>\nno\u00e7\u00e3o de consentimento segundo uma vontade individual, uma decis\u00e3o volunt\u00e1ria a<br \/>\npartir de um sujeito capaz se torna problem\u00e1tica em sociedades em que os indiv\u00edduos,<br \/>\nlegalmente inclusive, n\u00e3o s\u00e3o considerados &#8220;iguais&#8221;. Assim, Filomena complexifica o<br \/>\nconsentimento mostrando que, o &#8220;consentimento n\u00e3o presumido&#8221; circunda em diferentes<br \/>\ntons todas as posi\u00e7\u00f5es sociais de vulnerabilidade.<br \/>\nConsentimento e vulnerabilidade ganham diferentes tons e import\u00e2ncias, de<br \/>\nforma que um se sobrep\u00f5e ao outro na explica\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es, colocando o sujeito<br \/>\ncomo ocupante de uma ou outra posi\u00e7\u00e3o &#8211; em especial, na total vulnerabilidade a qual<br \/>\ns\u00e3o colocadas pessoas &#8220;v\u00edtimas&#8221; por m\u00e9dicos, legistas (GREGORI, 2014). &#8220;Quer dizer,<br \/>\no problem\u00e1tico do consentimento est\u00e1 ancorado na complexidade da defini\u00e7\u00e3o do<br \/>\nsujeito e de sua vulnerabilidade enquanto tal, ou seja, se ele \u00e9 capaz de externar de<br \/>\nmodo consciente o seu consentimento&#8221; (idem, p. 54). Filomena analisa que o SSC<br \/>\nfunciona para a comunidade SM como revelador das mesmas preocupa\u00e7\u00f5es em sentido<br \/>\ncontr\u00e1rio, em uma tentativa &#8220;processual\u00edstica&#8221; de abstrair a vulnerabilidade e centrar-se<br \/>\nno consentimento. Os protocolos, como o SSC, t\u00eam essa fun\u00e7\u00e3o de permitir que as<br \/>\natividades sejam tomadas como er\u00f3ticas e n\u00e3o como violentas, criando um ambiente no<br \/>\nqual se acredita que &#8221; ao aprender e seguir aquelas normas pr\u00e1ticas, o que poderia ser<br \/>\nvisto como viol\u00eancia passa a ser visto e sentido como prazer.&#8221; (idem, p. 56).<br \/>\nEm vez de provocar reflex\u00f5es sobre o que seria fazer SM eticamente, a premissa<br \/>\nSSC tem sido seguida quase como uma religi\u00e3o, da qual o SM n\u00e3o pode se separar sob a<br \/>\npena de ser relegado ao campo da viol\u00eancia, do abuso. Popularizaram-se ideias como a<br \/>\nde que SM dentro do SSC \u00e9 bom e fora dele, \u00e9 ruim; e de que al\u00e9m de necess\u00e1rio, O<br \/>\nSSC \u00e9 suficiente, absolvendo as responsabilidades de aten\u00e7\u00e3o, zelo, compaix\u00e3o (STEIN,<br \/>\n2002). &#8220;Tornou-se literalmente um princ\u00edpio: um marcador lingu\u00edstico usado para<br \/>\ndistinguir &#8220;n\u00f3s&#8221; de &#8220;eles&#8221; (It has become literally a shibboleth: a linguistic marker used<br \/>\nto distinguish \u201cus\u201d from \u201cthem.) (idem, p. 1, tradu\u00e7\u00e3o livre). N\u00f3s, BDSMers \u00e9ticos, e<br \/>\neles, estupradores?<br \/>\nAs quest\u00f5es que envolvem o SSC ser colocado como um princ\u00edpio para o BDSM<br \/>\ngiram em torno da sua insufici\u00eancia e, mais uma vez, do estabelecimento de limite para<br \/>\no que aceit\u00e1vel e n\u00e3o \u00e9. Quando foi proposto, o GMSMA&#8217;s n\u00e3o tinha por inten\u00e7\u00e3o que o<br \/>\nSSC se transformasse em um princ\u00edpio, dessa forma quase ortodoxa, mas sim que fosse<br \/>\num facilitador do di\u00e1logo entre as partes, algo que se opusesse a &#8220;descuido,<br \/>\nirresponsabilidade e desinforma\u00e7\u00e3o&#8221; no BDSM.<\/p>\n<p><em>S\u00f3 porque uma intera\u00e7\u00e3o S\/M \u00e9 segura, sensata e consensual, n\u00e3o significa<br \/>\nque seja bem feita, mutuamente satisfat\u00f3ria ou que vale a pena copiar! [Just<br \/>\nbecause an S\/M interaction is safe, sane, and consensual doesn\u2019t mean that<br \/>\nit\u2019s well done, mutually satisfying, or worth emulating!] (STEIN, 2002, p. 5,<br \/>\ntradu\u00e7\u00e3o livre).<\/em><\/p>\n<p>Apesar de tudo, ter referenciais b\u00e1sicos no campo dos acordos que olhem no<br \/>\nsentido de garantir integridade dos pares, da observa\u00e7\u00e3o criteriosa de seus estados<br \/>\nmentais, e dos movimentos de consentir e consensuar, soa imprescind\u00edvel. Precisamos<br \/>\nde bases protocolares que n\u00e3o s\u00f3 tragam contornos \u00e0 pr\u00e1tica como estejam, como o<br \/>\nSSC, fortemente ligados \u00e0 ideia geral de BDSM. Foi e \u00e9 de extrema import\u00e2ncia o<br \/>\nalcance que a sigla SSC ganhou &#8220;dentro e fora da cena&#8221; pelos esfor\u00e7os dessa<br \/>\ncomunidade &#8211; por vezes impelida pelos questionamentos de sujeitas curiosas ou at\u00e9<br \/>\nmesmo contr\u00e1rias \u00e0 subcultura BDSM. Foi o SSC que, por muito tempo, norteou<br \/>\nminhas pr\u00e1ticas er\u00f3ticas e atualmente, a premissa SSC est\u00e1 na m\u00eddia, nas mat\u00e9rias de<br \/>\nrevista e blogs, e \u00e9 ampla e profundamente discutida entre BDSMers.<br \/>\nAnos mais tarde, iniciando o mestrado, participei de uma oficina de shibari,<br \/>\nsobre a qual falarei mais a frente. Logo no in\u00edcio dessa oficina, a facilitadora tentou<br \/>\neconomizar o tempo ao falar sobre isso para que pud\u00e9ssemos partir para as amarra\u00e7\u00f5es,<br \/>\nmas trouxe uma proposta que jogou um facho de luz nas minhas inquieta\u00e7\u00f5es sobre o<br \/>\ntema. Ela segurava no colo um pequeno notebook de onde mostrava alguns slides com<br \/>\nexplica\u00e7\u00f5es &#8220;b\u00e1sicas&#8221; sobre BDSM. Uma de suas coloca\u00e7\u00f5es problematizava o SSC, e<br \/>\nampliava a cr\u00edtica. Ela disse que SSC \u00e9 uma das bases de consentimento, mas que<br \/>\nexistem outras tamb\u00e9m organizadas em siglas, e orientadas de diferentes formas, e nos<br \/>\napresentou a RACSA &#8211; Risco Assumido Consensual em atividades Sexuais Alternativas,<br \/>\nque segue a mesma proposta do RACK &#8211; Risco Assumido e Consensual em pr\u00e1ticas<br \/>\nKink (Risk Aware Consensual Kink). Gostei da ideia, pensar em riscos assumidos e<br \/>\ndialogados soou melhor do que sanidade e seguran\u00e7a.<br \/>\nRACK ficou popular nas comunidades BDSM por causa das insatisfa\u00e7\u00f5es com a<br \/>\nproposta do SSC, que j\u00e1 eram presentes desde sua populariza\u00e7\u00e3o nos anos 1980. T\u00e3o<br \/>\nlogo SSC se popularizou nas comunidades gays e l\u00e9sbicas norteamericanas estampando<br \/>\ncamisas como um slogan direcionado aos interessados na LeatherCulture, apareceram<br \/>\ncamisas com respostas em tom de brincadeira como &#8220;Unsafe, Insane and<br \/>\nNonconsensual&#8221; (inseguro, insano e n\u00e3o-consensual). Gary Switch ent\u00e3o, prop\u00f4s o<br \/>\nRACK como um &#8220;slogan&#8221; alternativo ao SSC. Significa Risk Aware Consensual Kink,<br \/>\nou Risco assumido e consensual kink. A proposta foi de abandonar a prerrogativa de<br \/>\nseguran\u00e7a em detrimento \u00e0 uma ideia de reduzir os danos, de estudar os riscos. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, o termo &#8220;kink&#8221; foi adicionado para delimitar ao universo SM (SWITCH, 2001). A<br \/>\ntradu\u00e7\u00e3o pode ser feita para pervers\u00e3o consensual ciente de riscos.<br \/>\nAssim como a RACK v\u00e1rias outras siglas j\u00e1 foram propostas em variados<br \/>\ncontextos, apesar de algumas terem popularidade limitada. S\u00e3o exemplos PRICK<br \/>\n(Personal responsibility in consensual kink), RISSCK (Risk Informed, Safe, Sane,<br \/>\nConsensual Kink &#8211; Pervers\u00e3o Consensual S\u00e3, Segura e de Risco Informado), PCRM<br \/>\n(Pr\u00e1tica Consensual com Riscos Minimizados, SSS (S\u00e3o, seguro e sensual). Tamb\u00e9m<br \/>\nhouve a proposta CCC ou os Tr\u00eas C&#8217;s, recebida por Stein (2022) ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o<br \/>\nsobre o SSC mas mais antiga que esta, que significa Committed, Compassionate,<br \/>\nConsensual (Comprometido, Compassivo, Consensual). E a 4Cs (caring,<br \/>\ncommunication, consent, and caution) delineada por D. Williams, Jeremy Thomas,<br \/>\nEmily Prior e Candace Christensen (2014). As bases s\u00e3o tentativas de criar um norte<br \/>\nque delimite a subcultura BDSM, e servem como esse elemento lingu\u00edstico que permite<br \/>\na associa\u00e7\u00e3o direta das pr\u00e1ticas que poderiam ser lidas como violentas, com o campo da<br \/>\nconsensualidade e da imperatividade de consentimento. E elas s\u00e3o boas nisso. Seguir ou<br \/>\nn\u00e3o seguir essas bases estritamente n\u00e3o \u00e9 o central, o mais importante aqui \u00e9 estar ativo<br \/>\nno movimento de garantir consensualidade, o acordo, e o prazer m\u00fatuo.<br \/>\nEm uma das discuss\u00f5es em grupo de Facebook acompanhei uma postagem que<br \/>\ndiscutia protocolos de seguran\u00e7a, antes mesmo de fazer as entrevistas da pesquisa. A<br \/>\npergunta inicial era de uma rec\u00e9m-chegada nesse grupo e ela perguntava se ali naquele<br \/>\ngrupo as pessoas &#8220;seguiam mesmo o SSC&#8221;. Muitos coment\u00e1rios responderam a ela, em<br \/>\ntom de verdades definitivas. No fim, ap\u00f3s muitas respostas confusas foi explicado a ela<br \/>\nque essas bases de consentimento t\u00eam servido como um guia geral sobre o que sustenta<br \/>\no BDSM: o acordo m\u00fatuo. Essas bases assim como as chamadas &#8220;liturgias&#8221; n\u00e3o s\u00e3o<br \/>\nregras estanque a serem seguidas, mas referenciais para olhar na hora de construir seu<br \/>\npr\u00f3prio protocolo, contrato, ou mesmo de imaginar uma cena. Protocolos s\u00e3o acordos<br \/>\nespec\u00edficos feitos para determinado ato, seja uma festa, um bar, um encontro a dois. O<br \/>\nprotocolo fala de desejos, possibilidades, limites, rituais, atitudes que disparam<br \/>\nrespostas.<br \/>\nDepois disso, ainda na rede, conheci a ideia de uma dupla de BDSMers que<br \/>\ntamb\u00e9m se relaciona afetivamente. Ela contou que tinham tr\u00eas tipos de protocolo: azul,<br \/>\nlil\u00e1s e rosa. Todos pensados detalhadamente pela dupla para tr\u00eas tipos de contextos<br \/>\ndiferentes: os dias em que estivessem mais ou menos animados pelas atividades do<br \/>\ncotidiano; os dias que estivessem mais &#8220;hardcore&#8221;, com mais tempo; e outro, para os<br \/>\ndias que preferissem atividades &#8220;rom\u00e2nticas&#8221;. Para cada uma dessas situa\u00e7\u00f5es um grupo<br \/>\nde permiss\u00f5es, limites, rituais. Protocolos individuais, comunica\u00e7\u00e3o aberta e expl\u00edcita,<br \/>\ninvocando o movimento de olhar para si e descobrir seu desejo pra colocar em acordo<br \/>\ncom o do outro, esse parece ser o cen\u00e1rio ideal de negocia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nTive acesso a uma \u201clista\u201d, parte de um contrato BDSM, compartilhada em um<br \/>\ndos grupos no Facebook. Nos coment\u00e1rios, a sugest\u00e3o de que algu\u00e9m fizesse a tradu\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo documento. Ao fim do download, o arquivo BDSMChecklist.xls abriu na minha tela.<br \/>\nA planilha \u00e9 parte de um contrato BDSM inicialmente publicado pelo site Bondage.com<br \/>\ne replicada em f\u00f3runs e grupos online. Ela conta com caixas para marca\u00e7\u00f5es sobre a<br \/>\npr\u00e1tica: Sim (farei); N\u00e3o (n\u00e3o farei); Talvez\/Vou tentar; N\u00e3o aplic\u00e1vel; Limite brando;<br \/>\nS\u00f3 com Mestre; Limite r\u00edgido; e um \u00faltimo espa\u00e7o com indica\u00e7\u00f5es para contar seu n\u00edvel<br \/>\nde experi\u00eancia com tal ato. A lista \u00e9 separada em pr\u00e1ticas Related to sex [Relacionadas a<br \/>\nsexo], Bondage, S&amp;M (sadismo e masoquismo), Fetish [fetiche], Power play [cenas de<br \/>\npoder], Role play [cenas], Bondage Toys [brinquedos para bondage], S&amp;M toys<br \/>\n[brinquedos para S&amp;M] e Fetish 2.<br \/>\nAnal sex (give); Anal sex (get). A lista come\u00e7a com sexo anal, separando assim<br \/>\ncomo em outros itens, em \u201cdar\u201d e \u201creceber\u201d. Segue pelo uso de dildos, plug anal, sexo<br \/>\noral, bissexualidade for\u00e7ada, orgias, sexo em p\u00fablico, entre v\u00e1rias outras. Nas<br \/>\nespecifica\u00e7\u00f5es do Bondage detalhes sobre o desejo de ser amarrada\/o por todo o corpo<br \/>\nou partes, por quanto tempo, se nos genitais ou n\u00e3o, em p\u00fablico, com ou sem suspens\u00e3o.<br \/>\nAl\u00e9m de citar poss\u00edveis materiais para as imobiliza\u00e7\u00f5es como correntes, crucifixo,<br \/>\ngaiolas, camisa de for\u00e7a etc. Algumas pr\u00e1ticas na subdivis\u00e3o S&amp;M s\u00e3o asfixia, tapas,<br \/>\nmordidas, choques, tortura genital, dilata\u00e7\u00f5es de v\u00e1rios tipos, chutes, tortura nos<br \/>\nmamilos, espancamentos.<br \/>\nNos Fetiches est\u00e3o as pr\u00e1ticas de escatologia em v\u00e1rios n\u00edveis como chuva<br \/>\nnegra, dourada (fezes e urina, respectivamente). Al\u00e9m de enemas, exibicionismo, cross<br \/>\ndressing, salto alto, uniformes. A maior das subdivis\u00f5es \u00e9 a das cenas de trocas de<br \/>\npoder, \u201cPower play\u201d, que come\u00e7a com a 24\/7\/365 TPE, que significa Total Power<br \/>\nExchange (Troca total de poder), ou seja, domina\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o 24 horas por dia, 7 dias<br \/>\npor semana, durante todo o ano. Seguem as pr\u00e1ticas de controle do uso do banheiro,<br \/>\nrestri\u00e7\u00e3o e modifica\u00e7\u00e3o de comportamento, trabalho dom\u00e9stico, coleiras, cintos de<br \/>\ncastidade. As roles plays s\u00e3o as \u201ccenas\u201d como a Age Play (ou infantilismo), cuckold (ou<br \/>\ncorno), rape play (ou jogo de estupro), sequestro, cen\u00e1rio m\u00e9dico, animal play, pris\u00e3o,<br \/>\nprostitui\u00e7\u00e3o fantasiosa, cenas religiosas entre outras. A lista segue com o detalhamento<br \/>\nde objetos para as pr\u00e1ticas j\u00e1 citadas como agulhas, canos, facas, piercings, \u00f3leos e<br \/>\noutros.<br \/>\nQuis trazer alguns dos termos que encontrei no campo para ilustrar a que<br \/>\natividades estou me referindo quando falo sobre BDSM. Pr\u00e1ticas mais &#8220;comuns&#8221; como<br \/>\no sexo oral ou o uso de dildos tamb\u00e9m podem ser possibilidades aqui, mas algumas<br \/>\ndessas pr\u00e1ticas da lista, sejam \u201csexuais\u201d ou n\u00e3o, n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o presentes no nosso<br \/>\nimagin\u00e1rio. Ao mesmo tempo que pode ser f\u00e1cil imaginar uma cena na qual uma dupla<br \/>\npratica &#8220;sexo anal&#8221; em um contexto de domina\u00e7\u00e3o\/submiss\u00e3o, a imagem de uma sess\u00e3o<br \/>\nna qual algu\u00e9m leva chicotadas, usa coleira e\/ou faz trabalho dom\u00e9stico for\u00e7ado \u201ce s\u00f3\u201d<br \/>\nest\u00e1 distante da ideia normativa de sexo, da qual falarei mais adiante.<br \/>\nOnline \u00e9 poss\u00edvel encontrar uma grande variedade de v\u00eddeos e manuais feitos por<br \/>\nBDSMers4 ensinando as melhores t\u00e9cnicas para as pr\u00e1ticas, os protocolos de seguran\u00e7a<br \/>\ne as discuss\u00f5es sobre consentimento. H\u00e1 textos de pessoas ligadas \u00e0 medicina e \u00e0<br \/>\nenfermagem com dicas e cuidados desde pr\u00e1ticas mais simples como chicotear e a\u00e7oitar<br \/>\nat\u00e9 as mais invasivas como enemas anais e inser\u00e7\u00f5es urogenitais. Al\u00e9m de v\u00eddeos e<br \/>\nrevistas, e uma rede social exclusiva para BDSMers, o FetLife, h\u00e1 tamb\u00e9m um largo<br \/>\nmercado de objetos voltado para essa cena como as sex shops estudadas por Filomena<br \/>\nGregori (2016) mas n\u00e3o apenas. F\u00e1bricas e lojas de lingeries, acess\u00f3rios em couro e<br \/>\nl\u00e1tex, dildos, grandes objetos para amarra\u00e7\u00f5es, instala\u00e7\u00f5es para casas e quartos e muito<br \/>\nmais podem ser encontrados nas redes. Depois do lan\u00e7amento dos filmes \u201c50 tons de<br \/>\ncinza\u201d diversas marcas de sex toys5 lan\u00e7aram cole\u00e7\u00f5es especiais com o tema do filme.<br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o do BDSM com a m\u00eddia \u00e9 um terreno delicado. Regina Facchini (2013)<br \/>\nmostra que o retrato do BDSM na m\u00eddia se d\u00e1 segundo uma &#8220;equa\u00e7\u00e3o entre er\u00f3tico e<br \/>\nex\u00f3tico&#8221; (p. 9) que se reitera ao expor viv\u00eancias com inten\u00e7\u00e3o maior de desmistificar,<br \/>\norientar novos praticantes e afastar a exotifica\u00e7\u00e3o do que de lutar contra<br \/>\nconstrangimentos mais institucionais. A jornalista e BDSMer Catherine Scott (2015)<br \/>\nanalisou as configura\u00e7\u00f5es &#8220;homem Dom\/mulher sub, mulher Dom\/homem sub&#8221;, como<br \/>\nelas aparecem na cultura pop tentando responder a uma an\u00e1lise feminista. Ela usou<br \/>\ndesde clipes de Rihanna e Madonna at\u00e9 cl\u00e1ssicos do cinema como Secret\u00e1ria (2002).<br \/>\nA m\u00eddia \u00e9 respons\u00e1vel por um sem n\u00famero de estere\u00f3tipos sobre BDSM (e<br \/>\ntamb\u00e9m sobre feministas). A proposta de Catherine foi olhar com uma &#8220;lente feminista<br \/>\nsexopositiva&#8221; para as categorias citadas em filmes, seriados etc. e desmistificar os<br \/>\nestere\u00f3tipos, e essa aura de mist\u00e9rio que parece pairar sobre o tema \u201csadomas\u00f4\u201d.<br \/>\nAlgumas de suas afirma\u00e7\u00f5es iniciais s\u00e3o referentes \u00e0 pr\u00f3pria natureza do BDSM:<br \/>\n&#8220;BDSM \u00e9 sobre ferir pessoas e for\u00e7\u00e1-las a fazer coisas que n\u00e3o querem fazer&#8221;,<br \/>\n&#8220;dominantes s\u00e3o pseudo-estupradores malvados e sedentos de poder&#8221;, &#8220;sempre envolve<br \/>\nsexo&#8221;, &#8220;\u00e9 muito violento e doloroso&#8221;.<br \/>\nAl\u00e9m desses mitos, estere\u00f3tipos de g\u00eanero que se reiteram sobre as posi\u00e7\u00f5es de<br \/>\nTop e bottom, quando ocupadas por um homem ou uma mulher. Para ela a figura da<br \/>\ndominadora na m\u00eddia \u00e9 como uma mulher que assume caracter\u00edsticas tidas como<br \/>\nmasculinas como agressividade e for\u00e7a, refor\u00e7ando a l\u00f3gica bin\u00e1ria de g\u00eanero e<br \/>\ncolocando como transgressora a mulher que se posiciona assim. O estere\u00f3tipo da mulher<br \/>\nbranca, cisg\u00eanero, magra e empunhando um chicote ainda \u00e9 a figura de Domme<br \/>\ncolocada pela cultura pop. O imagin\u00e1rio da mulher sensual, em roupas desconfort\u00e1veis,<br \/>\nde salto alto e l\u00e1tex aparece como \u00fanica possibilidade imaginativa, excluindo pessoas<br \/>\nfora da \u00f3rbita bin\u00e1ria do g\u00eanero, que prefiram roupas largas e confort\u00e1veis para uma<br \/>\nsess\u00e3o ou simplesmente corpos que n\u00e3o se restrinjam ao padr\u00e3o branco\/magro (SCOTT,<br \/>\n2015).<br \/>\nA mulher na posi\u00e7\u00e3o de bottom tamb\u00e9m est\u00e1 sujeita a uma variedade de<br \/>\nestere\u00f3tipos, tanto a partir do pensamento mais tradicional heteronormativo, quanto a<br \/>\npartir do feminismo. A l\u00f3gica de que uma mulher submissa est\u00e1 reiterando uma suposta<br \/>\n&#8220;verdadeira natureza feminina&#8221; por um lado, e por outro, e a acusa\u00e7\u00e3o por parte de<br \/>\ncertos nichos feministas de uma &#8220;lavagem cerebral&#8221; do patriarcado. Catherine concorda<br \/>\ncom Mollena Williams, feminista negra e bottom, que as imagens deturpadas<br \/>\n(HARRINGTON, WILLIAMS, 2012) que a m\u00eddia produz e refor\u00e7a sobre BDSM s\u00f3<br \/>\npodem gerar repulsa da sociedade. A cultura pop est\u00e1 recheada de imagens de mulheres<br \/>\nque se submetem a partir de personagens que est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o hierarquicamente<br \/>\ninferior a seus &#8220;Tops&#8221; como secret\u00e1rias, empregadas dom\u00e9sticas ou alunas. Poucas s\u00e3o<br \/>\nas personagens que est\u00e3o em uma busca ativa por esse tipo de parceria, mas muitas<br \/>\naparecem sendo convencidas a estarem naquela rela\u00e7\u00e3o, trazendo a gram\u00e1tica do abuso<br \/>\npara junto do BDSM. Mulheres l\u00e9sbicas em cenas BDSM tamb\u00e9m s\u00e3o raramente<br \/>\nrepresentadas na m\u00eddia, poucos casos refletem a problem\u00e1tica da est\u00e9tica direcionada ao<br \/>\nolhar masculino, refor\u00e7ando ainda o corpo magro, branco, cisg\u00eanero como norma. N\u00e3o<br \/>\naparecem nessas representa\u00e7\u00f5es as mulheres n\u00e3o-brancas, n\u00e3o-femininas, n\u00e3o-magras,<br \/>\ncorpos variados que jogam com leveza e prazer, para satisfa\u00e7\u00e3o m\u00fatua.<br \/>\nAinda nesse livro, &#8220;Thinking Kink: The Collision of Feminism, BDSM, and Pop<br \/>\nCulture&#8221; (SCOTT, 2015), Catherine mostra como a cultura pop classifica homens em<br \/>\npapeis de submiss\u00e3o com sentimento de pena. Ele \u00e9 visto como &#8220;deixando de ser<br \/>\nhomem&#8221; quando se submete, \u00e9 colocado como &#8220;pat\u00e9tico&#8221;. Alguns enredos parecem<br \/>\nquerer manter no\u00e7\u00f5es de masculinidade por outras vias, como escolhendo personagens<br \/>\nfortes e poderosos que demonstram de forma \u00f3bvia serem &#8220;mais fortes&#8221; que a<br \/>\ndominadora, e como ele poderia sair da situa\u00e7\u00e3o caso quisesse. H\u00e1 sempre uma ideia<br \/>\npairando no ar de que a posi\u00e7\u00e3o de sub \u00e9 uma experimenta\u00e7\u00e3o, diferente do cotidiano.<br \/>\nO desservi\u00e7o prestado pela m\u00eddia \u00e0 comunidade BDSM ao longo da hist\u00f3ria teve<br \/>\num novo marco no lan\u00e7amento dos livros e filmes 50 tons de cinza (2011). Essa foi uma<br \/>\ntrilogia lan\u00e7ada por E.L James a partir de uma fanfic (hist\u00f3ria inventadas por f\u00e3s que<br \/>\ncompartilham o universo fict\u00edcio de grandes obras) do sucesso Twilight (Crep\u00fasculo)<br \/>\n(sim, os livros do vampiro). O enredo mostra uma jovem jornalista t\u00edmida e sem<br \/>\nexperi\u00eancias que se entrega ao superpoderoso Sr. Grey ap\u00f3s suas contundentes<br \/>\ninvestidas. Ele \u00e9 um milion\u00e1rio jovem e traumatizado por abusos sexuais na inf\u00e2ncia por<br \/>\nparte de uma dominadora s\u00e1dica. Refor\u00e7ando mais um estere\u00f3tipo, a mo\u00e7a n\u00e3o est\u00e1, a<br \/>\nprinc\u00edpio, realmente interessada nos fetiches do rapaz que lhe presenteia com celulares,<br \/>\ncomputadores e outros mimos, em encontros rom\u00e2nticos onerosos. Ela se apaixona por<br \/>\nele e cede \u00e0 um contrato BDSM que inclui al\u00e9m de atividades no &#8220;quarto vermelho da<br \/>\ndor&#8221; (uma sala com aparatos para BDSM que ela apelidou assim), gin\u00e1sticas semanais,<br \/>\nconsultas com m\u00e9dicos, ingest\u00e3o de p\u00edlula anticoncepcional e dieta restrita. Ele, reluta<br \/>\nem revelar sua paix\u00e3o e ela acredita que seu amor pode mudar o &#8220;defeito&#8221; do rapaz.<br \/>\nO livro foi lan\u00e7ado com um forte lobby em torno de ser &#8220;literatura er\u00f3tica para<br \/>\nmulheres&#8221;, al\u00e9m do forte apelo para cenas detalhadas sobre o &#8220;misterioso&#8221; BDSM. E as<br \/>\ncenas s\u00e3o detalhadas, podem soar excitantes e partem da perspectiva de uma Anastacia<br \/>\n&#8220;virgem&#8221;, cujas primeiras experi\u00eancias s\u00e3o narradas no livro com o Sr. Grey. Esse livro<br \/>\nrefor\u00e7a estere\u00f3tipos sobre BDSM e por vezes naturaliza atitudes abusivas fora das cenas<br \/>\nBDSM, como a persegui\u00e7\u00e3o de Grey a Ana antes mesmo deles trocarem telefones.<br \/>\nApesar disso, a trilogia tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel por dar bastante aten\u00e7\u00e3o ao acordo de<br \/>\npalavras de seguran\u00e7a da dupla. Verde, para continuar; amarelo, perto do limite;<br \/>\nvermelho, interrompe a cena. Essa trilogia foi gatilho para muitas das postagens que<br \/>\nanalisei neste trabalho, al\u00e9m de ter dado grande visibilidade ao tema BDSM por ter<br \/>\nestado por meses em cartaz nas grandes redes de cinema brasileiras (e mundiais).<br \/>\nApesar disso a cr\u00edtica feminista foi incisiva, algumas p\u00e1ginas radicais enxergavam uma<br \/>\nAnastacia sem nenhuma ag\u00eancia, ap\u00e1tica e sem opini\u00e3o, quando a personagem se mostra<br \/>\ncomplexa, tem d\u00favidas e n\u00e3o chega a aceitar as extravag\u00e2ncias do pretendente,<br \/>\ncolocando-lhe alguns limites.<br \/>\nTamb\u00e9m \u00e9 a partir da m\u00eddia que os repert\u00f3rios sobre a est\u00e9tica BDSM se<br \/>\natualizam. N\u00e3o que a cultura do couro n\u00e3o esteja fortemente ligada ao BDSM, como<br \/>\nlembra Gayle Rubin em entrevista a Judith Butler (SCHOR, 1997), n\u00e3o podemos falar<br \/>\nde fetichismo e sadomasoquismo sem lembrar do impacto das grandes cidades e das<br \/>\nmudan\u00e7as nas formas de produ\u00e7\u00e3o de objetos. Ela fala no brilho do couro, da borracha,<br \/>\nna \u201cfria qualidade autorit\u00e1ria dos equipamentos m\u00e9dicos\u201d (p.85) e toda constru\u00e7\u00e3o do<br \/>\ndesejo da glamorosa moderniza\u00e7\u00e3o, mas o foco em corsets apertados, saltos altos de<br \/>\nl\u00e1tex e algemas reluzentes contribui para que esse cen\u00e1rio seja o \u00fanico imagin\u00e1rio<br \/>\nposs\u00edvel do contexto BDSM. Traz uma ideia de que BDSM pressup\u00f5e artigos caros,<br \/>\nroupas especiais e acess\u00f3rios pr\u00f3prios, gastos altos e lugares improv\u00e1veis, quando<br \/>\nsabemos que muito BDSM tem lugar nos nossos sof\u00e1s, no ch\u00e3o do quarto com<br \/>\nacess\u00f3rios feitos por n\u00f3s mesmas sob a luz do abajur e risadas. Esses estere\u00f3tipos<br \/>\nest\u00e9ticos alimentam al\u00e9m de fantasias, um mercado promissor.<br \/>\nO sucesso dos 50 tons foi s\u00f3 um marco na hist\u00f3ria do mercado que a cultura SM<br \/>\nsuscita. Durante a presen\u00e7a em campo para essa escrita minha timeline ficou cheia de<br \/>\npublicidade SM, al\u00e9m de sugest\u00f5es de p\u00e1ginas para curtir: sex shops especializados em<br \/>\nBDSM como o Marradamme Sex Shop, vendedores independentes de artefatos<br \/>\nartesanais como o Atelier Mestre Ferreiro, linhas tem\u00e1ticas sobre os 50 tons lan\u00e7adas<br \/>\npor grandes marcas do nicho er\u00f3tico, como a \u201c50 tons\u201d da Sexy Fantasy, entre muitos<br \/>\noutros produtos. Esse eixo foi estudando por Filomena Gregori em seu &#8220;Prazer e perigo:<br \/>\nnotas sobre feminismo, sex-shops e S\/M&#8221; (2004).<br \/>\nEm torno do BDSM, a sociabilidade em festas e bares foi estudada por Reginna<br \/>\nFacchini (2016), Marilia Loschi de Melo (2010) entre outras. Em S\u00e3o Paulo e no Rio de<br \/>\nJaneiro, cidades muitas vezes citadas nos achados do percurso e nas entrevistas, a<br \/>\nsociabilidade se d\u00e1 em bares e clubes como o Bar da Gata BDSM Clube (SP), o Clube<br \/>\nDomina (SP), em festas como o projeto Lux\u00faria (SP). Vale ressaltar que apenas uma<br \/>\nparte dos BDSMers \u00e9 realmente participativo dessa &#8220;comunidade&#8221;, seja por quest\u00f5es<br \/>\npessoais, pol\u00edticas, geogr\u00e1ficas ou preconceito, \u00e9 preciso pensar em BDSM com sujeitos<br \/>\nperto da ideia de comunidade, mas tamb\u00e9m longe.<br \/>\nFacchini faz pontua\u00e7\u00f5es importantes sobre o fato de que no Brasil o BDSM n\u00e3o<br \/>\nest\u00e1 inserido na agenda dos movimentos sociais. Os embates pol\u00edticos acontecidos na<br \/>\nd\u00e9cada 1970 nos Estados Unidos n\u00e3o se refletem com for\u00e7a aqui, onde os embates com<br \/>\no fundamentalismo religioso t\u00eam terreno nos direitos LGBT, nas pesquisas com c\u00e9lulas<br \/>\nembrion\u00e1rias e no aborto. No Brasil o que ela chama de &#8220;comunidade imaginada&#8221; se d\u00e1<br \/>\na partir da constitui\u00e7\u00e3o de di\u00e1logos com movimentos fora do Brasil e no foco em<br \/>\ndiminuir riscos e maximizar o prazer, e na inten\u00e7\u00e3o de desidentificar o BDSM do<br \/>\ndiscurso psiqui\u00e1trico dos &#8220;pervertidos&#8221;. Ela pontua que tal comunidade se imagina em<br \/>\ntorno do sadomasoquismo er\u00f3tico, fetiche ou BDSM tem articula\u00e7\u00f5es em diferentes<br \/>\nespa\u00e7os de sociabilidade, com comunica\u00e7\u00e3o desde cartas ao uso das redes sociais, e<br \/>\npresencialmente em bares, restaurantes entre outros, espa\u00e7os estes que s\u00e3o ou estiveram<br \/>\nligados ao mercado er\u00f3tico. Al\u00e9m disso, a pol\u00edtica do fa\u00e7a-voc\u00ea-mesmo \u00e9 intensamente<br \/>\ndifundida, e a maior parte das atividades n\u00e3o tem por inten\u00e7\u00e3o o lucro. Ela ainda afirma<br \/>\na refer\u00eancia \u00e0 comunidade ou meio BDSM como um movimento que objetiva articular<br \/>\npr\u00e1ticas mais seguras, e afastar a patologiza\u00e7\u00e3o e a criminaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEssas defini\u00e7\u00f5es, siglas e conceitos sobre BDSM est\u00e3o longe de esgotarem-se,<br \/>\nh\u00e1 muito sobre BDSM que n\u00e3o est\u00e1 aqui, n\u00e3o s\u00f3 porque esta \u00e9 uma pesquisa em<br \/>\nconstru\u00e7\u00e3o, mas porque existem in\u00fameras experi\u00eancias e perspectivas nesse tema que<br \/>\nainda se mostra com ares de &#8220;tabu&#8221;e &#8220;mist\u00e9rio&#8221;.<\/p>\n<p><strong>1.2 Transando feminismo: as disputas e as sexopol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p><em>Ao \u201cexperimentar\u201d e \u201cfalar\u201d de feminismo e sobre o movimento feminista,<br \/>\npercebi sua complexidade interna e quis estud\u00e1-la cada vez mais, aliando meu<br \/>\ninteresse em compreender que, ao mesmo tempo em que o feminismo alterou<br \/>\na realidade social \u2013 atrav\u00e9s da abertura \u00e0s mulheres da cidadania e depois da<br \/>\nconquista pelas mesmas do espa\u00e7o p\u00fablico \u2013 tamb\u00e9m possu\u00eda uma alteridade<br \/>\ninterna. Entendo que o feminismo brasileiro na atualidade \u00e9 identificado de<br \/>\nmaneira homog\u00eanea na literatura e no pr\u00f3prio campo, apesar de tamb\u00e9m ser<br \/>\ncomentado, concomitantemente, que h\u00e1 diversas especificidades internas.<br \/>\nQue especificidades s\u00e3o estas e que import\u00e2ncia o estudo delas pode trazer ao<br \/>\ncampo feminista? (ADRI\u00c3O, 2008, p. 20)<\/em><\/p>\n<p>A ideia de que existe um feminismo \u00fanico, com pautas e a\u00e7\u00f5es direcionadas, cai<br \/>\npor terra. O que costumamos chamar de feminismo \u00e9 um campo (ADRI\u00c3O, 2008)<br \/>\namplo no qual diversas disputas de sentidos se fazem presentes. A no\u00e7\u00e3o de \u201cmulher\u201d<br \/>\ncomo sujeito pol\u00edtico do feminismo tem sido colocada em cheque desde as<br \/>\ninterlocu\u00e7\u00f5es das feministas negras, exemplificadas no texto \u201cE eu n\u00e3o sou uma<br \/>\nmulher?\u201d de autoria de Sourjoune Truth (1878), e das observadas diferen\u00e7as colocadas<br \/>\npelas feministas l\u00e9sbicas. Da mesma forma, as contribui\u00e7\u00f5es do que tem sido chamado<br \/>\nTeorias Queer questionam a rigidez do g\u00eanero ampliando os sentidos desse termo.<br \/>\nAo falar sobre feminismos, Karla Galv\u00e3o Adri\u00e3o (2008) prop\u00f5e para fins<br \/>\nanal\u00edticos a separa\u00e7\u00e3o em tr\u00eas esferas: acad\u00eamica, do movimento social e<br \/>\ngovernamental. Nessas esferas, diferentes feminismos e feministas se relacionam formal<br \/>\ne informalmente, se contrap\u00f5em e dialogam atrav\u00e9s de teias pol\u00edtico-comunicativas<br \/>\n(ALVAREZ, 2014, p.18) que vinculam pessoas, ideias, pr\u00e1ticas e discursos. N\u00e3o s\u00f3<br \/>\ngrupos estruturados, mas tamb\u00e9m indiv\u00edduos e grupos informais que se presentificam<br \/>\nnas tr\u00eas esferas e fazem soar suas vozes na pol\u00edtica, nas universidades, nas ruas, nas<br \/>\nm\u00eddias etc. Os discursos feministas comp\u00f5em um universo de significados.<\/p>\n<p><em>Algumas logo iram retrucar que \u201caquelas\u201d mulheres do partido, movimento,<br \/>\nou sindicato tal definitivamente \u201cn\u00e3o s\u00e3o feministas\u201d; mas mantenho que esse<br \/>\ndebate em si, t\u00e3o comum e muitas vezes acrim\u00f4nio, sobre \u201cautenticidade\u201d e<br \/>\n\u201cpertencimento\u201d, entre as inclu\u00eddas e as exclu\u00eddas, que mesmo recusadas em<br \/>\nalguns casos insistem em se autoproclamar feministas, \u00e9 um dos<br \/>\ncomponentes discursivos que articula o campo feminista. (SONIA<br \/>\nALVAREZ, 2014, p. 16).<\/em><\/p>\n<p>Discursivamente, os feminismos se relacionam atrav\u00e9s do compartilhamento de<br \/>\nlinguagens, sentidos e vis\u00f5es de mundo parcialmente compartilhadas e disputadas. As<br \/>\nvertentes, pautas e atrizes dessa teia ganham maior ou menor visibilidade ao longo do<br \/>\ntempo e dos espa\u00e7os geogr\u00e1ficos, tornando esse ou aquele discurso mais vis\u00edvel e<br \/>\ndando-lhe o status de &#8220;representante do feminismo&#8221;. Dessa forma, sob o signo<br \/>\n&#8220;feminismo&#8221; se debatem ideias e conceitos oriundos de diferentes epistemologias, que<br \/>\nse entrecruzam e contrap\u00f5em. Dessa forma, n\u00e3o existe um feminismo, mas feminismos<br \/>\nplurais.<br \/>\nE essa pluralidade \u00e9 efervescente nas redes da internet. Segundo Carolina<br \/>\nFerreira (2015), entender as rela\u00e7\u00f5es entre ativistas on e off \u00e9 central para abrir os<br \/>\nc\u00f3digos dos feminismos. A internet tem sido palco para articula\u00e7\u00e3o de contatos,<br \/>\ntradu\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de termos, ideologias e lutas feministas. A web permitiu a<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o de redes comunicacionais entre grupos j\u00e1 formados, ao passo que tamb\u00e9m<br \/>\naparece como possibilidade de cria\u00e7\u00e3o de novas redes de identifica\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,<br \/>\nque se amplia por n\u00e3o determinar uma &#8220;consci\u00eancia feminista pr\u00e9via&#8221; como poss\u00edveis<br \/>\ngrupos offline.<\/p>\n<p><em>(&#8230;) a fa\u00edsca que me levou a questionamentos sobre feminismos e BDSM se<br \/>\ndeu no contexto de me perceber militante feminista e ao mesmo tempo ter<br \/>\ninteresse em sadomasoquismo, em BDSM. Estar em ambientes feministas<br \/>\n(como reuni\u00f5es de coletivos, constru\u00e7\u00f5es de eventos e atos, e o ambiente<br \/>\nacad\u00eamico) e surgir o assunto sexualidade ou, especificamente BDSM, me<br \/>\nlevava a cenas nas quais eu era questionada ou apontada sobre ser ou n\u00e3o ser<br \/>\nfeminista caso assumisse me interessar por fetiches, por BDSM. E tamb\u00e9m a<br \/>\nsitua\u00e7\u00f5es nas quais as companheiras me apoiavam, diziam que dever\u00edamos<br \/>\nabandonar a moral mesmo, e partir em busca dos nossos desejos, mas ligando<br \/>\no alerta do perigo. Receber esses coment\u00e1rios era sintonizar uma frequ\u00eancia<br \/>\nreconhecida: a culpa. Se de um lado minhas viv\u00eancias eram incentivadas, por<br \/>\noutro minha sexualidade era algo a ser controlado, tolhido, ou ent\u00e3o que eu<br \/>\n&#8220;n\u00e3o me dissesse feminista&#8221;. A n\u00edtida sensa\u00e7\u00e3o de que existiam &#8220;for\u00e7as<br \/>\npol\u00edticas opostas se degladiando&#8221; no meu corpo. E o corpo era mesmo o lugar<br \/>\ndessa disputa, as possibilidades do corpo, que posi\u00e7\u00f5es pode ocupar, para<br \/>\nqual dire\u00e7\u00e3o deve apontar o desejo e para onde aponta realmente. (Di\u00e1rio de<br \/>\nCampo, 1 ago 2018)<\/em><\/p>\n<p>Nas trilhas que segui desde o in\u00edcio dessa jornada, a primeira descoberta foi que<br \/>\nalgumas de minhas quest\u00f5es s\u00e3o historicamente importantes para o feminismo. Essa \u00e9<br \/>\numa hist\u00f3ria que tem sido contada a partir no norte do globo, em especial, dos Estados<br \/>\nUnidos (o que me diz tanto da necessidade de visibilidade a perspectivas descoloniais,<br \/>\nquanto do seu contexto de produ\u00e7\u00e3o). A sexualidade nunca foi consenso entre as<br \/>\nfeministas. No \u00e2mbito do momento hist\u00f3rico que vem sendo chamado &#8220;segunda onda<br \/>\nfeminista&#8221;, o sexo, e assim a pornografia e o SM, entraram em discuss\u00e3o no que foi<br \/>\nchamado de &#8220;Guerras sexuais feministas&#8221;, as Sex Wars, mais fortemente nas d\u00e9cadas de<br \/>\n1970 e 1980. Aquele era um momento de intensa repress\u00e3o da extrema direita<br \/>\nparalelamente ao auge da cultura hippie e da descoberta da p\u00edlula contraceptiva. Dessa<br \/>\ntens\u00e3o, duas vis\u00f5es sobre a sexualidade e seus limites se contrap\u00f5em: as ret\u00f3ricas<br \/>\nantipornografia, e as linhas sexopositivas.<br \/>\nNo cen\u00e1rio norteamericano perspectivas moralistas e tradicionais amea\u00e7avam<br \/>\nretomadas em um movimento denominado New Right, um grupo da direita pol\u00edtica com<br \/>\npropostas de fazer uma pol\u00edtica diferente da &#8220;antiga direita&#8221;. Nesse momento ficou<br \/>\nevidente as diferen\u00e7as entre os grupos feministas que se levantavam em posi\u00e7\u00f5es<br \/>\nantag\u00f4nicas. O grupo Women Against Violence in Pornography and Media, nasceu<br \/>\n1976 e, em 1979 o Women Against Pornography (WAP). Com argumenta\u00e7\u00e3o<br \/>\nantipornografia, a causa angariou cinco mil pessoas em passeata na Times Square, bem<br \/>\ncomo apoio institucional em suas campanhas que promoviam tamb\u00e9m apresenta\u00e7\u00f5es<br \/>\ninformativas em sex shops e espa\u00e7os de entretenimento er\u00f3tico. Nos slides de<br \/>\napresenta\u00e7\u00e3o de suas ideias, porn\u00f4 sadomasoquista como exemplo de pornografia que<br \/>\ninduzia \u00e0 viol\u00eancia, entre outros argumentos. Elas sustentavam que pornografia gera<br \/>\nviol\u00eancia contra a mulher, amparadas em conclus\u00f5es da psicologia experimental cujos<br \/>\nm\u00e9todos eram question\u00e1veis pois as amostras de &#8220;pornografia&#8221; utilizadas n\u00e3o eram<br \/>\nrepresentativas da pornografia como um todo.<br \/>\nO experimento de Edward Donnerstein mostrava cenas que misturavam sexo<br \/>\nexpl\u00edcito com viol\u00eancia. Os sujeitos eram questionados sobre terem ficado mais hostis<br \/>\nap\u00f3s o v\u00eddeo decidindo por agredir ou n\u00e3o agredir uma &#8220;v\u00edtima&#8221;, sem outra op\u00e7\u00e3o como<br \/>\nficar s\u00f3, sair ou &#8211; como \u00e9 comum acontecer ap\u00f3s acesso \u00e0 pornografia &#8211; masturbar-se.<br \/>\nElas tamb\u00e9m argumentavam que a pornografia era um retrato da viol\u00eancia contra a<br \/>\nmulher. Catharine Mackinnon, representante dessa linha, listou uma s\u00e9rie de imagens<br \/>\nporn\u00f4 que mostravam cenas como pessoas amarradas, cenas de pares urinando em si,<br \/>\nhumilha\u00e7\u00e3o, tortura. Essas cenas eram raras e, evidentemente, se tratavam de porn\u00f4<br \/>\nfetichista. (RUBIN, 1993)<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o \u00e0s ret\u00f3ricas antipornografia, esses grupos que fazem parte do<br \/>\ncampo denominado como feminismo radical (FERGUSON, 1984; GREGORI, 2008),<br \/>\neram compostos por uma parcela da comunidade l\u00e9sbica, tamb\u00e9m tinham como pauta o<br \/>\nSM, a prostitui\u00e7\u00e3o, a pedofilia e a promiscuidade sexual. Elas entendem a libera\u00e7\u00e3o<br \/>\nsexual das mulheres como uma \u201cextens\u00e3o dos privil\u00e9gios masculinos\u201d pois que as<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es sexuais s\u00e3o pautadas pela subordina\u00e7\u00e3o das mulheres e domina\u00e7\u00e3o pelos<br \/>\nhomens. Essa distribui\u00e7\u00e3o do poder j\u00e1 seria constituinte dos significados sociais de<br \/>\n\u201chomem\u201d e \u201cmulher\u201d (GREGORI, 2008). Tal vertente \u00e9 baseada numa vis\u00e3o r\u00edgida do<br \/>\npoder, que olha a assimetria entre homens e mulheres como est\u00e1vel. De base marxista,<br \/>\nCatherine Mackinnon afirma em seu texto datado da d\u00e9cada de 1980:<\/p>\n<p><em>(a) sexualidade \u00e9 para o feminismo o que o trabalho \u00e9 para o marxismo: o que<br \/>\n\u00e9 mais pr\u00f3prio de cada um e o que mais se tira de cada um (&#8230;) Assim como a<br \/>\nexpropria\u00e7\u00e3o organizada do trabalho de alguns para o benef\u00edcio de outros<br \/>\ndefine uma classe \u2013 a dos trabalhadores \u2013 a expropria\u00e7\u00e3o organizada da<br \/>\nsexualidade de alguns para o uso de outros define o sexo, mulher.<br \/>\n(MACKINNON, 2016, p.801)<\/em><\/p>\n<p>Outras feministas se mostraram contr\u00e1rias a essa vis\u00e3o. Em di\u00e1logo com<br \/>\nmovimentos de gays e l\u00e9sbicas, tendem a observar o poder de forma relacional. Ou seja,<br \/>\nde bases foucaultianas, um poder que n\u00e3o \u00e9 dado, mas que se produz nas rela\u00e7\u00f5es, que \u00e9<br \/>\nfluido e pressup\u00f5e a resist\u00eancia:<\/p>\n<p><em>(&#8230;) n\u00e3o tomar o poder como um fen\u00f4meno de domina\u00e7\u00e3o maci\u00e7o e<br \/>\nhomog\u00eaneo de um indiv\u00edduo sobre os outros, de um grupo sobre os outros, de<br \/>\numa classe sobre as outras; mas ter bem presente que o poder \u2013 desde que<br \/>\nn\u00e3o seja considerado de muito longe \u2013 n\u00e3o \u00e9 algo que se possa dividir entre<br \/>\naqueles que o possuem e o det\u00e9m exclusivamente e aqueles que n\u00e3o o<br \/>\npossuem e lhe s\u00e3o submetidos (&#8230;) O poder deve ser analisado como algo que<br \/>\ncircula, ou melhor, como algo que s\u00f3 funciona em cadeia. Nunca est\u00e1<br \/>\nlocalizado aqui ou ali, nunca est\u00e1 nas m\u00e3os de alguns, nunca \u00e9 apropriado<br \/>\ncomo uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas<br \/>\nsuas malhas os indiv\u00edduos n\u00e3o s\u00f3 circulam mas est\u00e3o sempre em posi\u00e7\u00e3o de<br \/>\nexercer este poder e de sofrer sua a\u00e7\u00e3o; nunca s\u00e3o o alvo inerte ou consentido<br \/>\nde poder, s\u00e3o sempre centros de transmiss\u00e3o. Em outros termos, o poder n\u00e3o<br \/>\nse aplica aos indiv\u00edduos, passa por eles (FOUCAULT, 1998, p. 183).<\/em><\/p>\n<p><em>(&#8230;) as rela\u00e7\u00f5es de poder suscitam necessariamente, apelam a cada instante,<br \/>\nabrem a possibilidade a uma resist\u00eancia, e \u00e9 porque h\u00e1 possibilidade de<br \/>\nresist\u00eancia e resist\u00eancia real que o poder daquele que domina tenta se manter<br \/>\ncom tanto mais for\u00e7a, tanto mais ast\u00facia quanto maior for a resist\u00eancia. De<br \/>\nmodo que \u00e9 mais a luta perp\u00e9tua e multiforme que procuro fazer aparecer do<br \/>\nque a domina\u00e7\u00e3o morna e est\u00e1vel de um aparelho uniformizante<br \/>\n(FOUCAULT, 2003, p. 232).<\/em><\/p>\n<p>Dessa forma, v\u00ea a &#8220;sujeita&#8221; numa posi\u00e7\u00e3o de maior fluidez por permitir que se<br \/>\npense o pr\u00f3prio lugar como inst\u00e1vel, n\u00e3o mais &#8220;oprimidas x opressores&#8221;, mas partes<br \/>\nativas de uma rela\u00e7\u00e3o de poder que se p\u00f5e fluida. A perspectiva sexo-positiva entende o<br \/>\nsexo &#8211; e assim, a pornografia e o S\/M &#8211; como um territ\u00f3rio sem\u00e2ntico em disputa e n\u00e3o<br \/>\ncomo um problema, apostando na possibilidade de resist\u00eancia. A pornografia e o BDSM<br \/>\npodem ser pensados a partir do feminismo e tomarem outro car\u00e1ter.<br \/>\nTal pensamento fundamenta os feminismos ligados ao movimento de libera\u00e7\u00e3o<br \/>\nsexual, &#8220;sexopositivas&#8221;, &#8220;pr\u00f3-sexo&#8221;. Entendendo o corpo, a pornografia e o sexo como<br \/>\nposs\u00edveis lugares de ressignifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para as mulheres e outras minorias sexuais,<br \/>\n\u201co prazer virou objeto de reflex\u00e3o, assim como maneiras alternativas e as escolhas<br \/>\nsexuais\u201d para busc\u00e1-lo (D\u00cdAZ-BENITEZ, 2014). A proposta era de repensar o prazer, os<br \/>\ndireitos, as pr\u00e1ticas e as minorias sexuais (RUBIN, 1984) distantes da heteronorma. A<br \/>\ntransgress\u00e3o \u00e0 tal norma tem grande poder de contesta\u00e7\u00e3o dos limites impostos \u00e0<br \/>\nsexualidade e ao sistema de g\u00eanero, assim como cria novas identidades a partir das<br \/>\nsexualidades (GREGORI, 2008).<br \/>\nA vertente cr\u00edtica ao essencialismo faz a defesa de que a libera\u00e7\u00e3o sexual das<br \/>\nmulheres pode ser empoderadora e coloca o prazer como direito fundamental. Essas<br \/>\ndiscuss\u00f5es foram foco na confer\u00eancia no Bernard College (Nova Iorque) em 1982, cujos<br \/>\nresultados foram publicados por Carole Vance, na colet\u00e2nea Prazer e perigo (1984). O<br \/>\ntexto coloca a import\u00e2ncia da tens\u00e3o entre prazer e perigo na sexualidade das mulheres:<br \/>\nperigo, pois \u00e9 necess\u00e1rio pensar em situa\u00e7\u00f5es como abusos e estupros no contexto da<br \/>\nviv\u00eancia da sexualidade; e prazer, pois h\u00e1 uma promessa de transgress\u00e3o das normas no<br \/>\nuso da sexualidade longe do mero exerc\u00edcio da reprodu\u00e7\u00e3o. O foco s\u00f3 no prazer e na<br \/>\ngratifica\u00e7\u00e3o deixa de lado a estrutura patriarcal em que atuam as mulheres. Entretanto,<br \/>\nfalar s\u00f3 de viol\u00eancia e opress\u00e3o deixa de lado a experi\u00eancia das mulheres no terreno da<br \/>\natua\u00e7\u00e3o e da elei\u00e7\u00e3o sexual e aumenta, sem se pretender, o terror, o desamparo sexual<br \/>\ncom que vivem as mulheres (FACHINNI, 2016). O livro \u00e9 um marco no campo &#8220;pois<br \/>\nele problematiza e recusa a associa\u00e7\u00e3o da sexualidade aos modelos coercitivos de<br \/>\ndomina\u00e7\u00e3o, assim como, a articula\u00e7\u00e3o desses modelos a posi\u00e7\u00f5es est\u00e1ticas de g\u00eanero em<br \/>\num mapa totalizante da subordina\u00e7\u00e3o patriarcal&#8221; (GREGORI, 2008, p. 3). Ainda<br \/>\nsegundo Filomena Gregori, Vance sistematizou o pensamento feminista sobre erotismo<br \/>\ncriando uma &#8220;conven\u00e7\u00e3o&#8221; que ajudou a fundar um novo campo promissor, os estudos<br \/>\nqueer.<br \/>\nGayle Rubin foi uma destas feministas interessadas no campo das disputas sobre<br \/>\nsexo Antrop\u00f3loga norte-americana, estudiosa das teorias feministas e de g\u00eanero, ela foi<br \/>\ntamb\u00e9m fundadora da organiza\u00e7\u00e3o l\u00e9sbica sadomasoquista Samois, em 1978. Gayle, no<br \/>\nmesmo grupo que Pat Califia, fundou o Samois a partir de uma descend\u00eancia do Cardea<br \/>\n&#8211; o bra\u00e7o l\u00e9sbico da Sociedade de Janus, um grande grupo misto SM de San Francisco<br \/>\n(EUA). O Samois foi protagonista dos embates com os grupos antipornografia al\u00e9m de<br \/>\nproduzir e registrar in\u00fameras contribui\u00e7\u00f5es ao campo SM, como ilustra o sistema de<br \/>\nc\u00f3digos composto pelo grupo, na Imagem.<\/p>\n<p><strong>Figura 1- SAMOIS, The handkerchief color<\/strong><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2797\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-1-SAMOIS-The-handkerchief-color.jpg\" alt=\"\" width=\"566\" height=\"408\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-1-SAMOIS-The-handkerchief-color.jpg 566w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-1-SAMOIS-The-handkerchief-color-18x12.jpg 18w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-1-SAMOIS-The-handkerchief-color-400x288.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 566px) 100vw, 566px\" \/><\/p>\n<p>Entre os problemas situados por Gayle em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ret\u00f3rica antipornografia<br \/>\nest\u00e3o que o foco na pornografia relativiza o real problema da viol\u00eancia. \u201cOnde tudo \u00e9<br \/>\nviol\u00eancia, ent\u00e3o nada \u00e9 violento&#8221; (PRADA, 2018, p. 48). Esse reducionismo exp\u00f5e \u00e0<br \/>\nimpossibilidade de den\u00fancia BDSMers (mas tamb\u00e9m prostitutas, acusadas pelas<br \/>\nradicais de praticarem &#8220;estupro pago&#8221; e &#8220;venderem consentimento&#8221;), afinal como<br \/>\npoder\u00edamos denunciar um estupro se estamos naquela cena &#8220;para isso&#8221;? Quando se<br \/>\nafirma que o SM \u00e9 viol\u00eancia, significa que n\u00e3o podemos reclamar de abusos, j\u00e1 que a<br \/>\ncoisa toda \u00e9 o abuso em si. Essa ideia tamb\u00e9m fundamenta que existem mulheres que<br \/>\nsabem o que \u00e9 um estupro (elas), e outras que n\u00e3o (n\u00f3s) &#8211; relativizando o abuso e<br \/>\ndesrespeitando aquelas que j\u00e1 sofreram estupros e abusos.<br \/>\nMonique Prada em seu Putafeminista (2018) argumenta sobre a demoniza\u00e7\u00e3o<br \/>\ndas rela\u00e7\u00f5es sexuais pagas, que impossibilita de vermos essas rela\u00e7\u00f5es como objetos de<br \/>\nconsensualidade ao mesmo tempo que leva a considerar diretamente como<br \/>\n&#8220;consensuais, adultas, saud\u00e1veis e prazerosas&#8221; aquelas rela\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o &#8211;<br \/>\nexplicitamente &#8211; mediadas por dinheiro. Essa coloca\u00e7\u00e3o me leva a pensar na<br \/>\ndemoniza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es BDSM enquanto cenas que usam as diferen\u00e7as de poder para<br \/>\no prazer. S\u00f3 s\u00e3o v\u00e1lidas as cenas que n\u00e3o envolvem o poder dessa forma? Ser\u00e1 que<br \/>\nexiste rela\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o mediada pelas diferen\u00e7as de poder, como Monique sugere<br \/>\nsobre dinheiro?<br \/>\nO argumento radical contra a pornografia, a prostitui\u00e7\u00e3o, o sadomasoquismo<br \/>\ncoloca esses feminismos muito pr\u00f3ximos da agenda conservadora reacion\u00e1ria. A direita<br \/>\npol\u00edtica se apropria de tais argumentos, conceitos e linguagem como se estivesse<br \/>\n&#8220;ouvindo as feministas&#8221; e, dessa forma, se torna a voz mais ouvida no tocante \u00e0<br \/>\npornografia, principalmente em tempos de aumento das regula\u00e7\u00f5es morais, que se d\u00e1<br \/>\n(\u00e0quela \u00e9poca nos EUA e, atualmente, no Brasil) no avan\u00e7o do conservadorismo<br \/>\npol\u00edtico (RUBIN, 1992). Rubin aponta que o feminismo deveria se opor totalmente \u00e0<br \/>\ncensura, apoiar a descriminaliza\u00e7\u00e3o da prostitui\u00e7\u00e3o, lutar pela aboli\u00e7\u00e3o de todas as leis<br \/>\nmoralistas e sobre &#8220;obscenidade&#8221;, apoiar as trabalhadoras do sexo em todos os campos<br \/>\ninclusive na pornografia, garantir material sexualmente expl\u00edcito e informativo al\u00e9m de<br \/>\nlutar pelas minorias sexuais e pela varia\u00e7\u00e3o sexual humana.<br \/>\nSegundo Gayle Rubin (1992), h\u00e1, no pensamentoo radical, uma ideia de que a<br \/>\npornografia \u00e9 necessariamente violenta, como se ela fosse pelo menos mais violenta e<br \/>\nsexista do que as outras m\u00eddias. Mas n\u00e3o \u00e9. Existem muito mais cenas de viol\u00eancias<br \/>\ncontra mulheres em novelas e filmes do que na pornografia. E mesmo se pensarmos na<br \/>\npornografia SM, ela \u00e9 distorcida, recortada al\u00e9m de n\u00e3o ser representativa do contexto<br \/>\ngeral da pornografia. Dessa forma, as regula\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es negativas recaem sobre o tipo<br \/>\nde m\u00eddia sexualmente expl\u00edcita (acusando de promover viol\u00eancia), mas n\u00e3o sobre as que<br \/>\ns\u00e3o violentamente expl\u00edcitas, como a TV aberta. A pornografia \u00e9 tamb\u00e9m um termo<br \/>\naberto, e suas defini\u00e7\u00f5es a partir da vis\u00e3o moralista e desse feminismo j\u00e1 colocam<br \/>\ndegrada\u00e7\u00e3o e abuso associados \u00e0 pr\u00f3pria ideia de pornografia.<br \/>\nAs no\u00e7\u00f5es sobre agenciamento das mulheres tamb\u00e9m s\u00e3o pautadas por Anne<br \/>\nMcClintock em seu livro Couro Imperial (2010) que questiona aquela tend\u00eancia<br \/>\nfeminista que v\u00ea as mulheres como v\u00edtimas n\u00e3o amb\u00edguas como se os marcadores<br \/>\nsociais que carregamos (ra\u00e7a, g\u00eanero, classe etc) &#8220;determinassem&#8221;, de forma estanque,<br \/>\natitudes e escolhas. Com isso ela coloca uma tens\u00e3o estrat\u00e9gica entre limita\u00e7\u00f5es sociais<br \/>\ne atua\u00e7\u00e3o social, contando a hist\u00f3ria de Munby e Cullwick, uma dupla fetichista do<br \/>\nper\u00edodo vitoriano. Para ela o fetichismo \u00e9 uma tentativa amb\u00edgua, contradit\u00f3ria e nem<br \/>\nsempre bem-sucedida de fazer negocia\u00e7\u00f5es nos limites do poder, resultando em rela\u00e7\u00f5es<br \/>\nmais complexas do que &#8220;dom\u00ednio x submiss\u00e3o&#8221;. O SM \u00e9 um teatro de signos, sobre o<br \/>\nqual circula um paradoxo de reiterar a obedi\u00eancia \u00e0s conven\u00e7\u00f5es de poder, por\u00e9m, com<br \/>\numa \u00eanfase exagerada em sua performance, que revela que essa ordem social \u00e9<br \/>\ninventada e performada, n\u00e3o &#8220;natural&#8221;. Ela questiona &#8220;Que tipo de atua\u00e7\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel<br \/>\nem situa\u00e7\u00f5es de desigualdade extrema?&#8221; (p. 211)<br \/>\nMaria Filomena Gregori (2008) \u00e9 professora e pesquisadora da UNICAMP,<br \/>\ntamb\u00e9m especialmente interessada nas rela\u00e7\u00f5es entre viol\u00eancia e erotismo. Ela pondera<br \/>\nque a linha de pensamento da libera\u00e7\u00e3o sexual, por ter dado \u00eanfase no prazer, fez com<br \/>\nque &#8220;o \u201clado\u201d do perigo [fosse] tratado de modo simples como se o consentimento,<br \/>\ncomo um mero ato de vontade, garantisse sua tradu\u00e7\u00e3o em prazer.&#8221; (GREGORI, 2008,<br \/>\np. 4). Ela mostra duas linhas de pensamento sobre o desejo: uma que focaliza a<br \/>\nobjetifica\u00e7\u00e3o do corpo feminino; e outra que cr\u00edtica a primeira por demonizar a<br \/>\nsexualidade, mas, delimita o olhar a rela\u00e7\u00f5es em que se pressup\u00f5em &#8220;equidade&#8221;, como a<br \/>\nl\u00e9sbica. Com isso, esse pensamento n\u00e3o trataria suficientemente a quest\u00e3o da viol\u00eancia.<br \/>\n&#8220;Como se por se tratarem de pessoas do mesmo sexo, o consentimento j\u00e1 fosse<br \/>\ngarantido de antem\u00e3o e a viol\u00eancia e o perigo transpostos para a arena dos prazeres&#8221;<br \/>\n(GREGORI, 2008, p. 6).<br \/>\nEm &#8220;Pensando o sexo&#8221; Gayle Rubin (2003) se coloca ao lado das minorias<br \/>\nsexuais e mostra que as rela\u00e7\u00f5es sexuais n\u00e3o podem ser reduzidas ao vi\u00e9s de g\u00eanero e<br \/>\nque aquele feminismo n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico, ou o melhor olhar sob o qual deve-se observar a<br \/>\nsexualidade. Segundo essa autora, tecnologias sociais como as leis e a m\u00eddia t\u00eam na<br \/>\nsexualidade seu alvo de vigil\u00e2ncia e puni\u00e7\u00e3o. As vis\u00f5es negativas promovidas pela<br \/>\ncomunica\u00e7\u00e3o de massa, principalmente, incitam o preconceito e as viol\u00eancias f\u00edsicas e<br \/>\nmorais por parte do Estado, da seguran\u00e7a p\u00fablica e da popula\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso ela cita a<br \/>\n&#8220;fal\u00e1cia da escala mal posicionada&#8221;, pois que o sexo \u00e9 sempre mais culp\u00e1vel que outras<br \/>\natividades, como se fosse uma grande amea\u00e7a. Uma barreira invis\u00edvel entre o bom e o<br \/>\nmau sexo parece existir sob a constante amea\u00e7a de que, caso &#8220;tudo seja permitido&#8221; essa<br \/>\nfronteira ir\u00e1 ruir e o sexo &#8220;assustador&#8221; vai para o campo do aceit\u00e1vel. Isso corrobora<br \/>\npara a n\u00e3o exist\u00eancia da varia\u00e7\u00e3o benigna, ou seja, todas as atividades sexuais variantes<br \/>\nda norma s\u00e3o automaticamente consideradas negativas.<br \/>\nA persegui\u00e7\u00e3o ao que ela chama de \u201cvariedade er\u00f3tica\u201d invisibiliza sujeitas,<br \/>\nresguardada pela amea\u00e7a de um p\u00e2nico moral como se, algum tipo de sexo em si<br \/>\npudesse p\u00f4r em xeque a ordem da sociedade. \u201cA ideologia sexual popular \u00e9 uma sopa<br \/>\nnociva de ideias de pecado sexual, conceitos de inferioridade psicol\u00f3gica,<br \/>\nanticomunismo, histeria de massa, acusa\u00e7\u00e3o de bruxaria, e xenofobia\u201d (RUBIN, 2003,<br \/>\np.15). Ela denuncia a exist\u00eancia de um sistema de hierarquia social baseada em<br \/>\ncomportamentos sexuais. O bom sexo tem o status de &#8220;natural&#8221; e saud\u00e1vel, \u00e9<br \/>\nheterossexual, monog\u00e2mico, reprodutivo, feito em casa. No meio, as pr\u00e1ticas sexuais<br \/>\nque conquistaram historicamente alguma abertura: o sexo hetero fora do casamento, a<br \/>\nmasturba\u00e7\u00e3o, casais est\u00e1veis de l\u00e9sbicas e gays em espa\u00e7os pr\u00f3prios entre outros grupos.<br \/>\nNas mais baixas &#8220;castas sexuais&#8221;, considerado como mau sexo, est\u00e3o aquelas rela\u00e7\u00f5es<br \/>\ncom as sadomasoquistas, as travestis e transexuais, as fetichistas, e a prostitui\u00e7\u00e3o e por<br \/>\n\u00faltimo, o sexo intergeracional (RUBIN, 2003).<br \/>\nPara os grupos sexuais que est\u00e3o no topo, h\u00e1 o privil\u00e9gio, a respeitabilidade,<br \/>\nsuas rela\u00e7\u00f5es t\u00eam amparo legal, garantindo a possibilidade de mobilidade social, suporte<br \/>\ninstitucional e sua &#8220;sa\u00fade mental&#8221; n\u00e3o \u00e9 questionada. O outro lado, o mau sexo, fica<br \/>\nsujeito \u00e0 m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o, \u00e0 criminalidade, desamparo institucional, m\u00e9dico e jur\u00eddico al\u00e9m<br \/>\nde ter sua sa\u00fade mental sempre questionada, diagnosticada como pervers\u00e3o. Outros<br \/>\nelementos importantes dizem respeito \u00e0 invisibilidade e ao preconceito. Dessa forma,<br \/>\nsomente uma pequena parcela da capacidade sexual humana e da varia\u00e7\u00e3o entre<br \/>\natividades sexuais \u00e9 vista como positiva, segura e saud\u00e1vel, madura, legal e<br \/>\npoliticamente correta. As vis\u00f5es negativas disseminadas sobre o sadomasoquismo<br \/>\nfazem com que pessoas interessadas nas pr\u00e1ticas n\u00e3o acessem informa\u00e7\u00f5es sobre<br \/>\nseguran\u00e7a, consentimento e prazer. Rubin (2003) pensa as sadomasoquistas como<br \/>\nminoria sexual ou minoria er\u00f3tica e aponta as repress\u00f5es sofridas por esse grupo, no que<br \/>\ndiz respeito a direitos legais e aceita\u00e7\u00e3o social. A marginaliza\u00e7\u00e3o das minorias er\u00f3ticas e<br \/>\nsua consequente vulnerabilidade legal est\u00e3o no contexto de um sistema de opress\u00e3o que<\/p>\n<p><em>Corta transversalmente outros modos de desigualdade social, separando os<br \/>\nindiv\u00edduos e grupos de acordo com sua pr\u00f3prias din\u00e2micas intr\u00ednsecas. N\u00e3o \u00e9<br \/>\nreduz\u00edvel a, ou entend\u00edvel em termos de classe, ra\u00e7a, etnicidade ou g\u00eanero.<br \/>\n[\u2026] Algumas consequ\u00eancias do sistema de hierarquia sexual s\u00e3o meros<br \/>\naborrecimentos. Outras s\u00e3o muito graves. Em suas manifesta\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias,<br \/>\no sistema sexual \u00e9 o pesadelo kafkiano em que v\u00edtimas azarentas se tornam<br \/>\nrebanhos de humanos cuja identifica\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, apreens\u00e3o, tratamento,<br \/>\nencarceramento e puni\u00e7\u00e3o produz emprego e realiza\u00e7\u00e3o pessoal para milhares<br \/>\nde pol\u00edcias do v\u00edcio, oficiais das pris\u00f5es, psiquiatras e assistentes sociais.\u201d<br \/>\n(RUBIN, 2003, p.28)<\/em><\/p>\n<p>A cr\u00edtica de Rubin (2003) vai al\u00e9m, apontando que esse movimento repressor<br \/>\nparte tamb\u00e9m de comunidades gays e de feministas antipornografia \u2013 refletindo o<br \/>\nentendimento social e refor\u00e7ando teorias do campo psi. A fronteira imagin\u00e1ria entre o<br \/>\nbom sexo e o mau sexo est\u00e1 sempre em disputa, especialmente nos eixos religiosos,<br \/>\npsicol\u00f3gicos, feministas e socialistas. Mas se em determinados discursos feministas<br \/>\nprop\u00f5em-se posi\u00e7\u00f5es de poder r\u00edgidas e comportamentos sexuais est\u00e1veis e a vis\u00e3o<br \/>\nmoralista impera, o SM pode celebrar tais diferen\u00e7as de poder, subvertendo e se<br \/>\napropriando delas num jogo consensual e divertido.<br \/>\nAs provoca\u00e7\u00f5es que essa subcultura traz est\u00e3o, para Foucault, menos ligadas a<br \/>\ndescobertas sobre desejos sadomaso nos por\u00f5es do inconsciente e mais \u00e0s novas<br \/>\npossibilidades de prazer que o SM produz. \u00c9 infeliz a ideia que liga SM \u00e0 viol\u00eancia<br \/>\ncomo se fossemos seres extremamente violentos dando vaz\u00e3o \u00e0 agressividade, quando<br \/>\nestamos inventando novos usos do corpo e erotizando atos &#8220;estranhos&#8221;, estamos<br \/>\nrefazendo a no\u00e7\u00e3o de sexo, tensionando os limites desse nome. Para ele, \u00e9 preciso<br \/>\n&#8220;dessexualizar&#8221;o prazer, ampliar, testar.<\/p>\n<p><em>A id\u00e9ia de que o prazer f\u00edsico prov\u00e9m sempre do prazer sexual e a id\u00e9ia de<br \/>\nque o prazer sexual \u00e9 a base de todos os prazeres poss\u00edveis, tem, penso eu,<br \/>\nverdadeiramente algo de falso. O que essas pr\u00e1ticas de S\/M nos mostram \u00e9<br \/>\nque n\u00f3s podemos produzir prazer a partir dos objetos mais estranhos,<br \/>\nutilizando certas partes estranhas do corpo, nas situa\u00e7\u00f5es mais inabituais, etc.<br \/>\n(FOUCAULT, 2004, p. 264)<\/em><\/p>\n<p>Foucault ainda pontua outro aspecto importante sobre identidades, importante<br \/>\npara pensar sobre a &#8220;comunidade&#8221; BDSM. Identificar-se \u00e9 \u00fatil se servir para amplia\u00e7\u00e3o<br \/>\ndo c\u00edrculo de rela\u00e7\u00f5es, para favorecer amizades e produ\u00e7\u00f5es de prazer, para posicionarse.<br \/>\nMas \u00e9 in\u00fatil se a quest\u00e3o da identidade se torna o cerne da exist\u00eancia sexual da<br \/>\npessoa, se serve como um fator a ser desvendado sobre si para depois existir enquanto<br \/>\nlei, c\u00f3digo da sua exist\u00eancia &#8211; assim, a identidade retorna a uma forma de \u00e9tica, como a<br \/>\n&#8220;heterossexualidade tradicional&#8221; (FOUCAULT, 2004).<br \/>\nA no\u00e7\u00e3o foucaultiana sobre o SM chama aten\u00e7\u00e3o para a diferen\u00e7a como o poder<br \/>\nse d\u00e1 no SM e na sociedade. O poder social se caracteriza pela rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica que<br \/>\ntem com as institui\u00e7\u00f5es, limitando a mobilidade por seus c\u00f3digos muito bem<br \/>\nestabelecidos e institucionalizados. Enquanto rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica erotizada, a din\u00e2mica<br \/>\nde poder no SM \u00e9 sempre fluida. Todos sempre sabem que os papeis foram<br \/>\nestabelecidos, que podem ser invertidos, acordos expl\u00edcitos e t\u00e1citos definem essas<br \/>\nfronteiras. Segundo Foucault (2004, p.271), o SM n\u00e3o &#8220;reproduz, no interior de uma<br \/>\nrela\u00e7\u00e3o er\u00f3tica, a estrutura de uma rela\u00e7\u00e3o de poder. \u00c9 uma encena\u00e7\u00e3o de estruturas do<br \/>\npoder em um jogo estrat\u00e9gico, capaz de procurar um prazer sexual ou f\u00edsico&#8221;. O SM \u00e9<br \/>\num &#8220;processo de inven\u00e7\u00e3o&#8221;, utiliza uma rela\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para obter prazer.<br \/>\nDiferentemente da din\u00e2mica na &#8220;vida heterossexual&#8221; normatizada, na qual as rela\u00e7\u00f5es de<br \/>\npoder antecedem o sexo estabelecendo papeis, direcionando pr\u00e1ticas; no SM essas<br \/>\nrela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas fazem parte do &#8220;sexo&#8221;, s\u00e3o conhecidas e dialogadas.<\/p>\n<p><em>Em um dos casos, as rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas s\u00e3o puramente sociais e \u00e9 o ser<br \/>\nsocial que \u00e9 objetivado; enquanto que no outro caso, o corpo \u00e9 o implicado. E<br \/>\n\u00e9 essa transfer\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas que passam do ritual da corte ao<br \/>\nplano sexual, o que \u00e9 particularmente interessante. (FOUCAULT, 1982, p.<br \/>\n272)<\/em><\/p>\n<p>Dialogando com o pensamento de Gayle Rubin, Paul Preciado (2017) em seu<br \/>\nManifesto Contrassexual, reflete, a partir da imagem do dildo, sobre a produ\u00e7\u00e3o da<br \/>\nidentidade sexual, pensando no corpo como lugar de constru\u00e7\u00e3o biopol\u00edtica. De<br \/>\nopress\u00e3o, sim, mas tamb\u00e9m como centro de resist\u00eancia e de contraprodu\u00e7\u00e3o do prazer.<br \/>\nA contrassexualidade, assim como a no\u00e7\u00e3o de sexopol\u00edtica, s\u00e3o indiretamente<br \/>\nprovenientes do pensamento foucaultiano, para o qual a contraprodutividade das formas<br \/>\nde saber-prazer alternativas \u00e0s sexonormativas, \u00e9 a estrat\u00e9gia de resist\u00eancia mais eficaz<br \/>\nao biopoder &#8211; que produz disciplinas de normaliza\u00e7\u00e3o e determina formas de<br \/>\nsubjetiva\u00e7\u00e3o (PRECIADO, 2011; 2014). Para Paul Preciado (2011, p.12), \u201cpodemos<br \/>\ncompreender os corpos e as identidades dos anormais como pot\u00eancias pol\u00edticas, e n\u00e3o<br \/>\nsimplesmente como efeitos dos discursos sobre o sexo\u201d.<br \/>\nPreciado (2014) abandona a ideia de natureza como referencial \u2013 posto que esta<br \/>\n\u00e9 tamb\u00e9m constru\u00edda &#8211; e prop\u00f5e pensar o sexo como tecnologia biol\u00edtica de domina\u00e7\u00e3o<br \/>\nheterossocial. Essa tecnologia funciona reduzindo o \u201ccorpo a zonas er\u00f3genas em fun\u00e7\u00e3o<br \/>\nde uma distribui\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica de poder entre os g\u00eaneros (feminino\/masculino),<br \/>\nfazendo coincidir certos afectos com determinados \u00f3rg\u00e3os, certas sensa\u00e7\u00f5es com<br \/>\ndeterminadas rea\u00e7\u00f5es anat\u00f4micas\u201d (PRECIADO, 2014, p.25). O corpo &#8220;hetero&#8221; \u00e9<br \/>\nproduto de uma sofisticada tecnologia que divide a carne e a arquitetura do corpo,<br \/>\ndefinindo \u00f3rg\u00e3os por sua fun\u00e7\u00e3o e produzindo estruturalmente identidade de g\u00eanero e<br \/>\ncoloca\u00e7\u00f5es de &#8220;sexuais&#8221; e &#8220;reprodutores&#8221; aos \u00f3rg\u00e3os. Assim, podemos pensar sobre o<br \/>\ng\u00eanero:<\/p>\n<p><em>G\u00eanero n\u00e3o \u00e9 o efeito de um sistema fechado de poder nem uma ideia que<br \/>\nrecai sobre a mat\u00e9ria passiva, mas o nome do conjunto de dispositivos<br \/>\nsexopol\u00edticos (da medicina \u00e0 representa\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica, passando pelas<br \/>\ninstitui\u00e7\u00f5es familiares) que ser\u00e3o o objeto de uma reapropria\u00e7\u00e3o pelas<br \/>\nminorias sexuais. (PRECIADO, 2011, p1)<\/em><\/p>\n<p>Entendo a sexualidade como social, pol\u00edtica e historicamente constru\u00edda por<br \/>\nmeio da linguagem, sendo assim tem significados inst\u00e1veis que cambiam atrav\u00e9s do<br \/>\ntempo, da cultura e da geografia, estruturando o &#8220;dispositivo da sexualidade&#8221;<br \/>\n(FOUCAULT, 2004). A sexualidade \u00e9 estruturante em termo macro e micro, por meio<br \/>\nda linguagem estrutura a realidade social e \u00e9 elemento chave aos processos de<br \/>\nsubjetiva\u00e7\u00e3o. O sexo a sexualidade n\u00e3o s\u00e3o um efeito de uma repress\u00e3o que nos impede<br \/>\nde viver os desejos, mas o resultado de um conjunto complexo de tecnologias<br \/>\nprodutivas (PRECIADO, 2011). Para Preciado (2011) sexopol\u00edtica \u00e9 \u201cuma das formas<br \/>\ndominantes da a\u00e7\u00e3o biopol\u00edtica no capitalismo contempor\u00e2neo\u201d. Dessa forma,<br \/>\ninterligada ao sistema de g\u00eanero (RUBIN, 2003), ao capitalismo e ao racismo (hooks,<br \/>\n2000), a heteronorma como resultado de tal tecnologia, aparece como um sustent\u00e1culo<br \/>\ndo sistema pol\u00edtico. E essa tecnologia tem, como seu vi\u00e9s mais sofisticado apresentar-se<br \/>\nexatamente como &#8220;natureza&#8221;.<br \/>\n\u00c9 importante refletir sobre o que \u00e9 o sexo nas redes da sexopol\u00edtica, como faz<br \/>\nPreciado (2014), para deslocar o olhar sobre o BDSM. O sexo como tecnologia<br \/>\nheterossocial pressup\u00f5e certos usos do corpo, determinadas formas de obter prazer e at\u00e9<br \/>\no que \u00e9 o prazer sexual em si. \u201cA arquitetura do corpo [e do sexo] \u00e9 pol\u00edtica\u201d<br \/>\n(PRECIADO, 2014, p. 31). Desterritorializar a heterossexualidade como prop\u00f5e<br \/>\nPreciado passa por entender que o \u00f3rg\u00e3o sexual \u00e9 a pele, e o dildo, o sexo de pl\u00e1stico<br \/>\ntem capacidade de produzir prazer (e deslocamentos) assim como &#8220;um \u00f3rg\u00e3o&#8221;. O dildo<br \/>\naqui n\u00e3o \u00e9 necessariamente um objeto f\u00e1lico, mas o elemento prot\u00e9tico que produz<br \/>\nprazer, pode ser um chicote, cordas, tapas, teclas\u2026 e o corpo.<br \/>\nAs provoca\u00e7\u00f5es da contrassexualidade est\u00e3o nessas trilhas, do estudo dos<br \/>\ninstrumentos e dos dispositivos sexuais. Para produzir a contrassexualidade, alguns<br \/>\ndeslocamentos propostos s\u00e3o revisar a diferen\u00e7a entre sexo e g\u00eanero pois \u00e9 o g\u00eanero que<br \/>\nfunda o sexo, o g\u00eanero n\u00e3o \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social afastada do sexo, &#8220;constru\u00eddo x<br \/>\nnatural&#8221;. O biol\u00f3gico tamb\u00e9m \u00e9 constru\u00eddo e ambos s\u00e3o tecnologias complexas do<br \/>\ncorpo. O conceito de natureza \u00e9 uma fic\u00e7\u00e3o discursiva. O bin\u00f4mio feminino\/masculino<br \/>\nse apaga, e sujeitos s\u00e3o corpos falantes, textos socialmente constru\u00eddos onde<br \/>\nreinscrevemos constantemente a heteronorma repetindo e recitando seus c\u00f3digos. Al\u00e9m<br \/>\ndisso, toda rela\u00e7\u00e3o contrassexual tem como premissa o estabelecimento de um contrato<br \/>\nconsensual entre todas as corpas participantes.<\/p>\n<p><em>As pr\u00e1ticas S&amp;M, assim como a cria\u00e7ao de pactos contratuais que regulam os<br \/>\npap\u00e9is de submiss\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o, tornaram evidentes as estruturas er\u00f3ticas<br \/>\nde poder subjacentes ao contrato que a heterossexualidade imp\u00f4s como<br \/>\nnatural. Por exemplo, se o papel da mulher no lar, casada e submissa,<br \/>\nreinterpreta-se constantemente no contrato S&amp;M, \u00e9 porque o papel tradicional<br \/>\n&#8220;mulher casada&#8221; sup\u00f5e um grau extrema de submiss\u00e3o, uma escravid\u00e3o em<br \/>\ntempo integral e para a vida toda. Parodiando os papeis de g\u00eanero<br \/>\nnaturalizados, a sociedade contrassexual se faz herdeira do saber pr\u00e1tico das<br \/>\ncomunidades S&amp;M, e adota o contrato contrassexual temporal como forma<br \/>\nprivilegiada para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o contrassexual. (PRECIADO, 2011,<br \/>\np. 32)<\/em><\/p>\n<p>Os prazeres dissidentes, os corpos insubordinados a essa ordem imposta como<br \/>\n&#8220;natural&#8221; s\u00e3o capazes de expor, questionar, subverter o sistema tecnol\u00f3gico que<br \/>\nestabelece e mant\u00e9m desigualdades. Se o corpo \u00e9 espa\u00e7o tamb\u00e9m de resist\u00eancia, \u00e9 nas<br \/>\npr\u00e1ticas de prazer desse corpo que est\u00e1 a pot\u00eancia de mudar as posi\u00e7\u00f5es de enuncia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nInterferir nas tecnologias de escritura do sexo e do g\u00eanero n\u00e3o significa trocar certos<br \/>\ntermos por outros, nem de desfazer as marcas do g\u00eanero ou da heterossexualidade. A<br \/>\npartir dos &#8220;atos de fala&#8221; de Austin (1975), Judith Butler (2004) fala da performatividade<br \/>\nqueer: a for\u00e7a da cita\u00e7\u00e3o descontextualizada e da invers\u00e3o das posi\u00e7\u00f5es de enuncia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nA palavra que marcava a abje\u00e7\u00e3o, quando proferida por n\u00f3s ganha for\u00e7a contestadora,<br \/>\nprodutiva. Reapropriamos os discursos, subvertemos pr\u00e1ticas e s\u00edmbolos, abrimos os<br \/>\nc\u00f3digos da sexopol\u00edtica para hacke\u00e1-los.<br \/>\nNo pensamento de Butler (1990), o g\u00eanero, produto desse sistema tecnol\u00f3gico,<br \/>\nest\u00e1 inscrito no corpo e se expressa por meio da performatividade em atos, gestos e<br \/>\natua\u00e7\u00f5es, signos que fabricam e sustentam o g\u00eanero. Por seu car\u00e1ter performativo, \u00e9<br \/>\ninst\u00e1vel e est\u00e1 aberto a transforma\u00e7\u00f5es. A tecnologia falha, est\u00e1 sujeita a brechas e a<br \/>\nsubvers\u00f5es. Essa ideia de uma tecnologia do g\u00eanero, explicada por Teresa de Lauretis<br \/>\n(1994) descola o g\u00eanero da ideia de que ele existe a priori nos sujeitos, como tra\u00e7o de<br \/>\numa suposta natureza, e o coloca como sendo o conjunto de efeitos produzidos por<br \/>\naquelas tecnologias sociais nos corpos das pessoas, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e nos<br \/>\ncomportamentos &#8211; seria, ent\u00e3o, tanto o processo quanto o produto de sua representa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDessa forma, o g\u00eanero constitui um sistema simb\u00f3lico maior que, dentre outras<br \/>\ncoisas, atrela conte\u00fados culturais ao sexo dos indiv\u00edduos, baseado em valores e<br \/>\nhierarquias que est\u00e3o ligadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais. Para ela, a<br \/>\nconstru\u00e7\u00e3o social do g\u00eanero se desenrola atualmente na mesma medida que em tempos<br \/>\npassados, \u00e9 a forma pela qual a tecnologia age. Isso acontece tanto nos espa\u00e7os mais<br \/>\nesperados como a m\u00eddia, escola, medicina e fam\u00edlia quanto na academia, nas teorias e<br \/>\nno feminismo (LAURETIS, 1994) e essa percep\u00e7\u00e3o do g\u00eanero constru\u00eddo tamb\u00e9m pelo<br \/>\nfeminismo \u00e9 particularmente interessante quando estamos falando da comunica\u00e7\u00e3o<br \/>\nonline e em redes sociais digitais.<br \/>\nFilomena Gregori (2008, p. 579) lembra a reflex\u00e3o de Judith Butler (2004), que<br \/>\nafirma o g\u00eanero ser um aparato impl\u00edcito nas pr\u00e1ticas sociais que produz e normatiza o<br \/>\nbin\u00e1rio masculino\/feminino, \u201cuma pr\u00e1tica de improvisa\u00e7\u00e3o em um cen\u00e1rio de<br \/>\nconstrangimentos\u201d. A no\u00e7\u00e3o performativa do g\u00eanero de Butler e a ideia de uma<br \/>\ntecnologia de g\u00eanero que se inscreve nos corpos por meio de uma performatividade<br \/>\ndesperta para um paralelo perform\u00e1tico com as cenas BDSM descritas por Gregori:<\/p>\n<p><em>Tome as experi\u00eancias S\/M como par\u00f3dias: como pr\u00e1ticas que mobilizam e<br \/>\nexp\u00f5em com for\u00e7a dram\u00e1tica, mediante todo um repert\u00f3rio de conven\u00e7\u00f5es<br \/>\nculturais e sociais dispon\u00edveis, as assimetrias de poder, as materializa\u00e7\u00f5es e<br \/>\ncorporifica\u00e7\u00f5es de normas de g\u00eanero, de sexualidade, bem como de outros<br \/>\nmarcadores de diferen\u00e7a como classe, ra\u00e7a e idade. Para al\u00e9m da id\u00e9ia<br \/>\npresente no senso comum de que o teatro n\u00e3o \u00e9 a vida, tratar essas pr\u00e1ticas e<br \/>\ndecifrar seus enredos, cenas e cen\u00e1rios permite entender \u2013 at\u00e9 por seus<br \/>\nintrincados paradoxos \u2013 as conven\u00e7\u00f5es que organizam \u2013 tamb\u00e9m de modo<br \/>\nidiossincr\u00e1tico \u2013 as rela\u00e7\u00f5es entre viol\u00eancia, g\u00eanero e erotismo. (GREGORI,<br \/>\n2008, p. 595)<\/em><\/p>\n<p>Em Hac\u00eda uma teor\u00eda del performance, Richard Schenchner (2000) reflete sobre<br \/>\na performance a partir do marco teatral, do jogo da encena\u00e7\u00e3o. Para ele, os atos<br \/>\nacontecidos neste jogo levam a uma segunda realidade, uma realidade &#8220;de modo<br \/>\ndiferente&#8221; que faz com que o jogo n\u00e3o seja falso, porque ele provoca mudan\u00e7as naqueles<br \/>\nque o compoem e no p\u00fablico que assiste. Interpretando Schenchner, Mar\u00eda Elv\u00edra D\u00edaz-<br \/>\nBenitez (2015) nos ajuda a pensar nos prazeres perigosos, com sua observa\u00e7\u00e3o da<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica da \u201chumilha\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nMaria Elvira argumenta sobre o &#8220;plus&#8221; que o excesso nas &#8220;linguagens corporais<br \/>\ncom uso da viol\u00eancia&#8221; traz ao ato &#8211; colocando a esses limites entre a &#8220;realidade real&#8221; e a<br \/>\n&#8220;realidade interpretada&#8221;, a instabilidade de uma &#8220;corda bamba&#8221;. Com isso, em seu<br \/>\nexcesso, o ato se faz hiperrrealista. O momento de m\u00e1xima efic\u00e1cia destas performances<br \/>\n\u00e9 denominado por ela de fissura &#8211; a fronteira entre o prazer e o perigo, entre a<br \/>\nrepresenta\u00e7\u00e3o do ato e o ato em si. A fissura \u00e9, nesse contexto, uma possibilidade<br \/>\nprovocada ou n\u00e3o, que pode aparecer tanto na pornografia quanto no cotidiano geral da<br \/>\nsexualidade, inclusive quando pensamos em rela\u00e7\u00f5es de amor rom\u00e2ntico e afeto.<br \/>\nTratando da produ\u00e7\u00e3o pornogr\u00e1fica que acompanhou, Maria Elvira resume:<\/p>\n<p><em>Em outras palavras, essas pr\u00e1ticas n\u00e3o s\u00e3o estritamente reais porque s\u00e3o<br \/>\nencenadas. A teatraliza\u00e7\u00e3o as afastaria do repert\u00f3rio do snuff, do crash e de<br \/>\noutras imagens que se definem a partir da capta\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias de<br \/>\nviol\u00eancia e abuso no plano do ordin\u00e1rio. Contudo, elas evocam esse ordin\u00e1rio<br \/>\ne, n\u00e3o podendo ser reais, tornam-se hiper-reais (mais reais do que o real): por<br \/>\nmeio do exagero permanecem fi\u00e9is \u00e0 est\u00e9tica da crueldade e,<br \/>\nsimultaneamente, por meio do exagero lembram ao voyeur que se trata de<br \/>\numa performance. (&#8230;) A fissura seria o estado, dentro da encena\u00e7\u00e3o da<br \/>\ncrueldade, em que a exacerba\u00e7\u00e3o dos roteiros cria um efeito no performer no<br \/>\nqual s\u00e3o ativados os perigos subjacentes a uma pr\u00e1tica est\u00e9tica do sofrimento.<br \/>\nO \u201cchoro real em tempo real\u201d do qual falei algumas p\u00e1ginas atr\u00e1s revela um<br \/>\nper\u00edodo em que s\u00e3o excedidos os limites da encena\u00e7\u00e3o, fazendo com que o<br \/>\nhiper-real decaia e se emaranhe com o real (DIAZ BENITEZ, 2015, p.76)<\/em><\/p>\n<p>Ainda sobre as performances de &#8220;viol\u00eancia&#8221;, no SM Preciado (2011, p.108)<br \/>\najuda a pensar que &#8220;toda t\u00e9cnica que faz parte de uma pr\u00e1tica repressiva \u00e9 suscet\u00edvel de<br \/>\nser cortada e enxertada em outro conjunto de pr\u00e1ticas, reapropriada por diferentes<br \/>\ncorpos e invertida em diferentes usos, dando lugar a outros prazeres e a outras posi\u00e7\u00f5es<br \/>\nde identidade&#8221;. Portanto, tanto as t\u00e9cnicas de tortura como eletrotortura e<br \/>\nchicoteamento, quanto as posi\u00e7\u00f5es de poder est\u00e3o no centro de uma reviravolta<br \/>\ncompleta dos usos destas t\u00e9cnicas. \u00c9 um exerc\u00edcio de d\u00e9tournement (subvers\u00e3o,<br \/>\nreapropria\u00e7\u00e3o, detona\u00e7\u00e3o do uso &#8220;normal&#8221;) que interrompe e desvia os circuitos de<br \/>\nprodu\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o do saber-prazer.<br \/>\nSeguindo as pistas da contrassexualidade, recebi um convite virtual por meio do<br \/>\nFacebook ainda em 2017. O convite veio de Fernanda Ximenes &#8211; pesquisadora do<br \/>\nPPGPsi UFPE com interesse em p\u00f3s-porn\u00f4 e feminismos &#8211; para participar de uma<br \/>\noficina de shibari (uma t\u00e9cnica japonesa de Bondage, as amarra\u00e7\u00f5es) com Missogina.<br \/>\nEla, Constanzx Alvarez Castillo (2014), \u00e9 uma feminista lesbiana vinda do Chile, um<br \/>\ncorpo queer, interessada em BDSM que escreve a partir de suas narrativas sobre ser<br \/>\ngorda, p\u00f3s-porn\u00f4, pol\u00edticas cuir[14] e BDSM em perspectivas anticapitalistas e<br \/>\ndescoloniais. No convite, um aviso: Oficina n\u00e3o dirigida pra homens cis hetero. E a<br \/>\ndescri\u00e7\u00e3o da oficineira:<\/p>\n<p><em>Ativista l\u00e9sbica anarko-feminista, performer e oficineira, prolet\u00e1ria da<br \/>\nfeminilidade, ativando desde o monstruoso, as dissid\u00eancias corporais.<br \/>\nDesenvolve temas como a politiza\u00e7\u00e3o da gordura e do corpo, a<br \/>\nheterossexualidade como regime pol\u00edtico, luta antipatriarcal e antiespecista,<br \/>\np\u00f3s-porn\u00f4, alian\u00e7as com trans e travestis, hiperfeminilidade,<br \/>\nbondage\/shibari\/kinbaku e novas explora\u00e7\u00f5es com a dor, entre outros.<br \/>\n(P\u00c1GINA DO EVENTO \u201cWORKSHOP SHIBARI\u201d, 2017)<\/em><\/p>\n<p><strong>Figura 2 \u2013Workshop Shibari<\/strong><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2798\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-2-\u2013Workshop-Shibari-600x331.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"331\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-2-\u2013Workshop-Shibari-600x331.jpg 600w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-2-\u2013Workshop-Shibari-18x10.jpg 18w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-2-\u2013Workshop-Shibari-400x221.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-2-\u2013Workshop-Shibari.jpg 656w\" sizes=\"auto, (max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p>O pr\u00e9dio onde fica a Suplex Xangai \u00e9 antigo, no &#8220;centr\u00e3o&#8221; do Recife, entrei e fui<br \/>\nindicada a subir por um grande elevador. O p\u00fablico da oficina foi um conforto, entre<br \/>\namigas e desconhecidas, mulheres feministas, bichas e pessoas trans. Depois de um<br \/>\nlanche vegano e das apresenta\u00e7\u00f5es, uma introdu\u00e7\u00e3o ao BDSM para situar o que isso tem<br \/>\nq ver com o que ir\u00edamos aprender na oficina. Algumas pessoas nunca tinham ouvido<br \/>\nfalar, outras estavam ali por isso. Missogina falava em espanhol e fazia quest\u00e3o de<br \/>\ntraduzir do ingl\u00eas, t\u00e3o comum nessa cena, tantos termos quanto fossem poss\u00edveis. Ela<br \/>\nfalava de corpos que se davam prazer, em \u201clesbianas\u201d e \u201cmaricas\u201d que acordavam<br \/>\nconsentimentos, de pessoas al\u00e9m de seu g\u00eanero, mas com uma lucidez tipicamente<br \/>\nfeminista de que estamos todos e todas em assimetrias pelo g\u00eanero e tamb\u00e9m por outros<br \/>\nmuitos marcadores sociais de diferen\u00e7a.<br \/>\nOs corpos ali buscavam prazer al\u00e9m do que j\u00e1 temos por sexo, queriam sentir<br \/>\nsensa\u00e7\u00f5es in\u00e9ditas. Constanzx dividiu a turma em duplas, logo depois de<br \/>\nexperimentarmos a textura e o peso das cordas nos nossos corpos. Dividindo a turma em<br \/>\nduplas, Constanzx demonstrava os n\u00f3s e nos instru\u00eda nas amarra\u00e7\u00f5es. Kundaku \u00e9 a<br \/>\nvariante sensual do shibari, um tipo de amarra\u00e7\u00e3o oriental que tem por intuito<br \/>\nimobilizar pessoas sem apertar e que havia sido usada por prisioneiros chineses nos<br \/>\nquais cada tipo de amarra\u00e7\u00e3o indicava um crime. As cordas haviam sido lavadas por ela<br \/>\nantes da oficina, e sua textura era de um tecido grosso j\u00e1 usado, male\u00e1vel. A presen\u00e7a<br \/>\ndas linhas grossas na pele \u00e9 sens\u00edvel, o conjunto de linhas torcidas tem um peso que n\u00e3o<br \/>\nme causou dor mas que impedia completamente o movimento para fora da posi\u00e7\u00e3o<br \/>\ninicial. Meus p\u00ealos se arrepiaram aos primeiros toques da corda se arrastando na minha<br \/>\npele, \u00e9 quente, forte. Amarramos pernas, bra\u00e7os, pernas e bra\u00e7os, tronco, de p\u00e9, no ch\u00e3o,<br \/>\nde quatro, de frente. Alguns n\u00f3s deixavam a possibilidade da amarradora segurar, puxar,<br \/>\nvirar a corpa amarrada. Foi nessa oficina, no espa\u00e7o compartilhado com essas pessoas<br \/>\nque eu absorvi os argumentos de Gayle Rubin e Paul Preciado. Havia mesmo uma<br \/>\nsubvers\u00e3o ali que eu n\u00e3o conseguia visualizar nos 50 tons, nem no porn\u00f4 BDSM<br \/>\ngratuito online.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Figura 3 \u2013 Oficina de shibari com Constanzx, 2017<\/strong><br \/>\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2799\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017-486x600.jpg\" alt=\"\" width=\"486\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017-486x600.jpg 486w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017-768x948.jpg 768w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017-10x12.jpg 10w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017-400x494.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2023\/05\/Figura-3-\u2013-Oficina-de-shibari-com-Constanzx-2017.jpg 920w\" sizes=\"auto, (max-width: 486px) 100vw, 486px\" \/><\/p>\n<p>Constanzx comenta em seu texto \u201cGordura y sexualidade: pespuntes de<br \/>\npr\u00e1cticas BDSM\u201d (2014) que vivemos, segundo a \u00f3tica de Deleuze e Guattari, num<br \/>\nmundo capitalista cognitivo integrado que nos afeta no n\u00edvel econ\u00f4mico, mas tamb\u00e9m<br \/>\nno controle das subjetividades e nas produ\u00e7\u00f5es de desejo. O capitalismo engole as<br \/>\npot\u00eancias subversivas e as integra ao sistema, como ela exemplifica os movimentos<br \/>\ngays que lutam pelo direito de casar. Ela advoga por falarmos sobre o desejo<br \/>\nentendendo que ele \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o capitalista, como a heterossexualidade. Desejos<br \/>\nconstru\u00eddos que se passam por \u201cnaturais\u201d<\/p>\n<p><em>\u00bfQu\u00e9 tiene de feminista hablar de BDSM? \u00bfQu\u00e9 tiene de pol\u00edtico el<br \/>\ncuestionamiento de las pr\u00e1cticas sexuales heterosexuales? [&#8230;]. Visualizo en<br \/>\nmi vida al deseo como una producci\u00f3n unida a mi asignaci\u00f3n de g\u00e9nero,<br \/>\ncapaz de deconstruirse, y para lograrlo necesito volver a rearmar mi cuerpa, a<br \/>\nreconstruir las cuerpas que habito y que escapan a mi propia piel. Con ellas<br \/>\nbuscamos creaciones de nuevas formas de placer, fugamos creativamente,<br \/>\nprobamos, erramos, intentamos. Veo en el sexo el potencial pol\u00edtico de<br \/>\ndestruir las nociones normativas del g\u00e9nero y roles asignados, nuestra<br \/>\nsexualidad tiene la potencia de no seguir con la l\u00ednea sexo-g\u00e9nero-sexualidad,<br \/>\n\u00bfpor qu\u00e9 no usarla como arma para desbordar el dispositivo de g\u00e9nero?<br \/>\n(ALVAREZ, 2014, p. 144)<\/em><\/p>\n<p>As leituras de Alvarez, Preciado e Rubin levam a pensar em um BDSM<br \/>\npraticado por corpos insubordinados, uma pot\u00eancia na desterritorializa\u00e7\u00e3o do sexo e do<br \/>\nprazer, uma amplia\u00e7\u00e3o das formas de uso do corpo e uma reapropria\u00e7\u00e3o, um<br \/>\ndetourn\u00e9ment das pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es de poder. Parece que o BDSM grita que precisamos<br \/>\nrever as fronteiras discursivas entre prazer e viol\u00eancia, assim como o feminismo sempre<br \/>\ndisse. Olho para o BDSM, assim como para a pornografia e a sexualidade em geral,<br \/>\ncomo um territ\u00f3rio lingu\u00edstico em disputa. N\u00e3o acho que por si s\u00f3, esse jogo tenha<br \/>\npot\u00eancia de libertar os corpos da tecnologia heterossocial tampouco acredito que tal<br \/>\npr\u00e1tica v\u00e1, necessariamente, de encontro ao feminismo. Gosto de pensar em BDSM<br \/>\ncomo uma tecnologia de produ\u00e7\u00e3o de prazer que pode ser apropriada e significada de<br \/>\nv\u00e1rias maneiras.<\/p>\n<p>O presente texto \u00e9 parte da disserta\u00e7\u00e3o \u201c\u201cFEMINISTAS, TECLAS E TAPAS\u201d<br \/>\nUMA ETNOGRAFIA VIRTUAL SOBRE FEMINISMOS E BDSM\u201d<br \/>\nDispon\u00edvel em: https:\/\/repositorio.ufpe.br\/handle\/123456789\/38704<\/p>","protected":false},"featured_media":2796,"template":"","tags":[41,255,256,85],"class_list":["post-2795","posts_diversos","type-posts_diversos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","tag-bdsm","tag-feminismo","tag-sadomasoquismo","tag-texto"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos\/2795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/posts_diversos"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}