{"id":1297,"date":"2020-11-02T11:32:54","date_gmt":"2020-11-02T14:32:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ediyporn.com\/?post_type=posts_diversos&#038;p=1297"},"modified":"2020-11-16T17:12:11","modified_gmt":"2020-11-16T20:12:11","slug":"e-pau-na-maquina","status":"publish","type":"posts_diversos","link":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/posts_diversos\/e-pau-na-maquina\/","title":{"rendered":"\u00c9 pau na m\u00e1quina!"},"content":{"rendered":"<p>Texto publicado originalmente na <a href=\"https:\/\/revistageni.org\/\">Revista Geni<\/a> (2013-2016)<br \/>\nGeni \u00e9 uma revista virtual independente sobre g\u00eanero, sexualidade e temas afins. Ela \u00e9 pensada e editada por um coletivo de jornalistas, acad\u00eamicxs, pesquisadorxs, artistas e militantes. Geni nasce do compromisso com valores libert\u00e1rios e com a luta pela igualdade e pela diferen\u00e7a.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/1.jpg\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"384\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1304\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/1.jpg 680w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/1-400x226.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/1-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><br \/>\n<strong>Cena 1: Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>FADE IN.<\/p>\n<p>EXT. TANQUE DA CASA DE FAM\u00cdLIA CAT\u00d3LICA.<\/p>\n<p>TIA (<em>assustada, para a av\u00f3 do menino<\/em>): \u201cEsse menino est\u00e1 vendo filme brasileiro!\u201d<\/p>\n<p>INT. SALA DA CASA DE FAM\u00cdLIA CAT\u00d3LICA.<\/p>\n<p>TIO (<em>\u00e0 parte, empolgado<\/em>): \u201cHoje tem filme brasileiro no SBT!\u201d (esfregando as palmas secas das m\u00e3os).<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O card\u00e1pio podia incluir t\u00edtulos como <em>Os bons tempos voltaram: vamos gozar outra vez<\/em> or <em>Hist\u00f3rias que nossas bab\u00e1s n\u00e3o contavam<\/em> or <em>A f\u00eamea do mar<\/em>. O seletor da TV deixava o eterno canal 5 quando isso acontecia. Eram os anos 1990 e nem existia mais a famosa faixa da programa\u00e7\u00e3o da TV Record dedicada ao cinema brasileiro, mas ainda se chamava qualquer sess\u00e3o de \u201cSala Especial\u201d. (Pra quem n\u00e3o sabe, o programa era exibido entre 1979 e 1986 depois do famigerado programa <em>O Homem do sapato branco<\/em>).<\/p>\n<p>Havia exibi\u00e7\u00f5es de filmes nacionais na Globo, na Band ou no SBT, mas era mais certo sintonizar as faixas \u201cCinema Brasil\u201d na CNT\/ Gazeta ou \u201cCine Brasil\u201d na TV Cultura (sendo que esta \u00faltima tendia a ser mais cult, enquanto a primeira oferecia a certeza de pelo menos uns peitinhos no v\u00eddeo).<\/p>\n<p>Eu era s\u00f3 um menino curioso. Gostava da vis\u00e3o dos corpos que surgiam naqueles filmes. E secretamente come\u00e7ava a gostar da rea\u00e7\u00e3o do meu corpo diante de seios, bundas, peitos e pernas. Logo eu saberia que reagia assim tanto com as imagens das atrizes quanto dos atores \u2013 que, diga-se, eram bem menos interessantes, mas acabavam sendo o corpo masculino que eu tinha \u00e0 m\u00e3o (sem trocadilhos!).<\/p>\n<p>Naquele mundo anterior a todos os \u2018ismos\u2019 que eu conheceria depois, era tudo muito simples: \u201co cinema brasileiro\u201d a que se referia minha tia (preocupada com o futuro da na\u00e7\u00e3o!) era simples e puramente a <em>pornochanchada<\/em> \u2013 um termo pra se pronunciar no mesmo tom de rep\u00fadio com que as carolas diziam outra palavra: \u201cindec\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Cena 2: Hierarquias e gostos<\/strong><\/p>\n<p>INT. SALA DE UM CURSO DE 20 HORAS DE HIST\u00d3RIA DO CINEMA.<\/p>\n<p>ESTUDANTE 1: \u201cDe cinema nacional, s\u00f3 o Gl\u00e1uber mesmo!\u201d<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A pornochanchada \u00e9 uma daqueles assuntos que exp\u00f5em muito bem nossa mania de cr\u00edticas automatizadas, nossa mania de criar hierarquias a partir das coisas culturais de que gostamos, nossa mania de categorizar tudo que \u00e9 popular como sendo de menor qualidade e, por fim, nossa mania de maquiar a ignor\u00e2ncia sobre um assunto disfar\u00e7ando com desprezo e ironia.<\/p>\n<p>Acontece que muitas vezes esses posicionamentos ficam t\u00e3o naturais que esquecemos de pensar quando \u00e9 que eles ficaram naturais. Quer ver? Se voc\u00ea abrir o dicion\u00e1rio Houaiss vai encontrar a seguinte defini\u00e7\u00e3o para pornochanchada: \u201cSubg\u00eanero de filmes popularescos de baix\u00edssima ou p\u00e9ssima qualidade conceptual, formal e cultural, caracterizados por cenas de nudez, de sexo expl\u00edcito e di\u00e1logos que mesclam pornofonia e humor freq. escatol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>O horror. O pior do cinema nacional. Popularesco.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, talvez n\u00e3o haja palavra com mais resqu\u00edcio da ditadura que \u201cpopularesco\u201d, muito usada na cr\u00edtica cultural para se lutar pelo bom senso e bom gosto. Basta lembrar que parte da conquista de prest\u00edgio da <a href=\"https:\/\/revistageni.org\/06\/nossa-odiada-favorita\/\">Rede Globo<\/a> nos anos 1970 esteve ligada a um desejo de se afastar disso.<\/p>\n<p>O interessante da defini\u00e7\u00e3o de Houaiss \u00e9 que ela concentra muitos dos lugares-comuns que temos associado ao cinema nacional produzido entre fins dos anos 1960 e meados dos 1980.<\/p>\n<p>S\u00e3o momentos muito diferentes, produ\u00e7\u00f5es as mais diversas que ficaram sob o guarda-chuva do termo pornochanchada. A televis\u00e3o teve um papel importante na gesta\u00e7\u00e3o desse imagin\u00e1rio ao isolar as produ\u00e7\u00f5es nacionais nos hor\u00e1rios mais tardios, criando uma aura de \u201cfilmes proibidos\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo dos anos, a pornochanchada foi virando um retrato emba\u00e7ado de uma \u00e9poca que o pa\u00eds tentava deixar para tr\u00e1s. Mas a que custo?<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2.jpg\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"384\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1305\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2.jpg 680w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2-400x226.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/p>\n<p><strong>Cena 3: No escurinho do cinema<\/strong><\/p>\n<p>INT. DIA. SALA DE AULA DE UM CURSO QUALQUER DE HUMANAS.<\/p>\n<p>PROFESSOR: \u201cTa\u00ed um sinal do lixo cultural produzido pela ditadura!\u201d<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>A pornochanchada \u2013 e tudo o que se quer fazer caber dentro do termo \u2013 reflete um momento muito espec\u00edfico de consumo cultural no Brasil. Particularmente, acho o per\u00edodo muito interessante porque \u00e9 nele que come\u00e7a a se fixar as nossas grandes ind\u00fastrias culturais. Quem pesquisar um pouco vai perceber que houve uma grande mudan\u00e7a na forma de circula\u00e7\u00e3o e de acesso a livros, jornais, discos, espet\u00e1culos e a meios como a televis\u00e3o e o cinema.<\/p>\n<p>Parte desse boom tem rela\u00e7\u00e3o direta com o desenvolvimento de uma politica cultural delineada no regime militar e bastante preocupada com o nacionalismo. Havia um interesse muito grande em promover o consumo e acesso a bens culturais relacionados ao universo brasileiro. Contra os chamados enlatados, fazia-se uma televis\u00e3o competitiva (e nossa TV, comparada a de outros pa\u00edses no mesmo per\u00edodo, apelou pouco a produ\u00e7\u00f5es estrangeiras). J\u00e1 o cinema era favorecido por leis que determinavam a exibi\u00e7\u00e3o de uma cota de filmes nacionais em todas as salas.<\/p>\n<p>Foi com base nisso que se criou no Brasil um dos momentos mais interessantes e criativos do cinema \u2013 come\u00e7ando no Rio de Janeiro, com as produ\u00e7\u00f5es do chamado \u201cBeco da Fome\u201d, e se fixando (produtiva e comercialmente) na \u201cBoca do Lixo\u201d paulistana (regi\u00e3o da rua do Triunfo, na Luz).<\/p>\n<p>Diferente do que acontece hoje em dia, os filmes eram feitos com investimento de produtores \u2013 n\u00e3o havia os benef\u00edcios de leis de incentivo, o que significa que a aventura do cinema foi bancada por gente que queria fazer na ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Aos poucos, o cinema foi se transformando em empreendimento comercial e produzia-se muito, a ponto de haver filmes prontos em um m\u00eas (entre filmagem e p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o). O p\u00fablico lotava as grandes salas de cinema do centro de Sao Paulo. Grandes mesmo: s\u00f3 para se ter uma id\u00e9ia, o Cine Marab\u00e1, na Rep\u00fablica, tinha capacidade para mais de 1500 pessoas! Foi, portanto, um per\u00edodo de grande di\u00e1logo entre os realizadores e o p\u00fablico \u2013 majoritariamente masculino.<\/p>\n<p><strong>Cena 4: Como era gostosa a pornochanchada<\/strong><\/p>\n<p>INT. NOITE. MESA DE UM BAR.<\/p>\n<p>ESTUDANTE: \u201cCara, e a pornochanchada que <a href=\"https:\/\/www.huffpostbrasil.com\/max-milliano-melo\/o-porno-da-xuxa_b_5378418.html\">a Xuxa fez<\/a>?\u201d<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Sob o nome de pornochanchada est\u00e3o filmes muito variados. H\u00e1 dramas, filmes policiais e filmes de terror (que enganavam o p\u00fablico com t\u00edtulos como <em>Possu\u00eddas pelo pecado<\/em> or <em>Excita\u00e7\u00e3o<\/em>, dois exemplos de Jean Garret, um dos melhores diretores que tivemos e que poucos conhecem).<\/p>\n<p>Mas o que ficou marcado no imagin\u00e1rio foram as com\u00e9dias er\u00f3ticas. Eram hist\u00f3rias leves, recheadas de clich\u00eas narrativos e estere\u00f3tipos (muitos dos quais estavam presentes tamb\u00e9m na fic\u00e7\u00e3o televisiva). A nudez funcionava como chamariz, junto com os t\u00edtulos apelativos que incomodavam a fam\u00edlia e as pessoas de bom senso. Diz-se at\u00e9 que houve em Curitiba uma Marcha da Fam\u00edlia contra a Pornochanchada!<\/p>\n<p>As influ\u00eancias desses filmes eram muitas. Vinham da pr\u00f3pria chanchada (outro g\u00eanero popular que marcou o cinema brasileiro nos anos 1940), das com\u00e9dias er\u00f3ticas italianas (como filmes de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Lando_Buzzanca\">Lando Buzzanca<\/a>) ou mesmo dos chamados <em>exploitation<\/em> (tidos como sensacionalistas por explorar situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia). O roteiro e as situa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m remetiam \u00e0s tradicionais com\u00e9dias de costumes do teatro \u2013 \u00e9 como se muitas pe\u00e7as do s\u00e9culo XIX fossem atualizadas para o ambiente dos anos 70, com as consequentes moderniza\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a, classe e g\u00eanero. O resultado: um cinema bastante popular, renegado pela cr\u00edtica e pelos guardi\u00e3es do bom gosto.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria desse cinema popular est\u00e1 ligada aos diferentes momentos cultural, econ\u00f4mico e politico do pa\u00eds entre o fim dos anos 1960 e a redemocratiza\u00e7\u00e3o, nos anos 1980. \u00c9 poss\u00edvel identificar pelo menos tr\u00eas momentos diferentes nessa produ\u00e7\u00e3o. O primeiro, no come\u00e7o dos anos 1970, quando os filmes tendem a ser mais \u2018ing\u00eanuos\u2019 no tratamento da sexualidade. Um bom exemplo \u00e9 <em>Essa gostosa brincadeira a dois<\/em>, praticamente uma com\u00e9dia rom\u00e2ntica dirigida por Victor di Mello e estrelada pelo gal\u00e3 Carlo Mossy. Mais pro fim dos anos 1970 e come\u00e7o dos 1980, h\u00e1 filmes em que a quest\u00e3o sexual \u00e9 tratada de forma mais ousada (veja-se o caso do filme <em>Mulher Objeto<\/em>, sobre uma esposa fr\u00edgida). A fase final se deu ao longo dos anos 1980, j\u00e1 com filmes de sexo expl\u00edcito. Esta \u00faltima fase \u00e9 tida como a decad\u00eancia da ind\u00fastria da boca \u2013 o momento pol\u00edtico e econ\u00f4mico afastou alguns produtores e tamb\u00e9m o p\u00fablico. Ao mesmo tempo, pelo seu car\u00e1ter \u201ctrash\u201d, acabou sendo tomada como um retrato de tudo que se havia produzido antes (e n\u00e3o \u00e9 raro haver posts na linha \u201c10 maiores bizarrices do cinema nacional\u201d a partir da reuni\u00e3o de algumas cenas deslocadas de filmes dessa \u00e9poca).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"680\" height=\"384\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1306\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3.jpg 680w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-400x226.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/3-300x169.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 680px) 100vw, 680px\" \/><\/p>\n<p><strong>Cena 5: Bonitinha, mas ordin\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>EXT. DIA.<\/p>\n<p>MILITANTE (<em>para o amigo<\/em>): \u201cNada mais machista, mis\u00f3gino e homof\u00f3bico que a pornochanchada brasileira!\u201d<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Pondera\u00e7\u00e3o talvez seja uma das coisas mais dif\u00edceis em tempos marcados por certezas, radicalismos e rigidez de pensamento. Todo dia deveria ser bom lembrar daquele dito popular que sugeria cuidado para n\u00e3o jogarmos fora o beb\u00ea junto com a \u00e1gua suja do banho. Essa imagem \u00e9 genial, e serve aqui pra repensarmos certas ideias prontas sobre pornochanchada e cinema nacional.<\/p>\n<p>Apressados, podemos escrever text\u00f5es sobre como a pornochanchada \u00e9 o retrato do machismo, da homofobia, do classismo etc. Podemos e n\u00e3o ir\u00edamos extrair dali nenhuma novidade. Por outro lado, \u00e9 interessante verificar como os filmes veicularam e, em certa medida, moldaram uma moral sexual que, se analisada detidamente, n\u00e3o tinha nada de coerente \u2013 e \u00e9 nessas contradi\u00e7\u00f5es que acho que est\u00e1 o mais interessante das produ\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Evidente que o que alimenta a pornochanchada \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 o momento nacionalista, mas a pr\u00f3pria cultura machista e toda uma <a href=\"https:\/\/revistageni.org\/08\/para-ele-para-ela\/\">produ\u00e7\u00e3o er\u00f3tica\/pornogr\u00e1fica para o p\u00fablico masculino<\/a>. Os filmes lidam com isso, com um imagin\u00e1rio sobre o homem brasileiro. Mas tamb\u00e9m \u00e9 poss\u00edvel observarmos os diferentes modos como a pornochanchada veiculou mensagens de valoriza\u00e7\u00e3o da liberdade sexual e da sexualidade e prazer femininos. Eu me lembro, por exemplo, de uma cena de <em>A Mulher sensual<\/em> (Ant\u00f4nio Calmon, 1981) em que uma fot\u00f3grafa pergunta para a modelo: \u201cVoc\u00ea j\u00e1 teve um orgasmo?\u201d. Em <em>Mulher objeto<\/em> (brilhante dire\u00e7\u00e3o do autor de novelas Silvio de Abreu), o t\u00edtulo engana e o que se v\u00ea \u00e9 um ensaio sobre uma mulher que n\u00e3o encontra prazer sexual com o marido.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de reconsiderar a pornochanchada sob uma ideia simplista de resist\u00eancia, algo muito comum quando entramos em contato com manifesta\u00e7\u00f5es populares. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso cuidado pra n\u00e3o cair numa idealiza\u00e7\u00e3o nost\u00e1lgica de tempos tidos como \u201cpoliticamente incorretos\u201d \u2013 uma postura f\u00e1cil se considerarmos os tempos atuais como \u201ccaretas\u201d. O que penso \u00e9 que a pornochanchada conseguia de alguma forma veicular <em>tamb\u00e9m<\/em> mensagens <em>que<\/em> poder\u00edamos chamar de progressistas \u2013 ou que questionam os dogmatismos com que frequentemente tentamos enfrentar o mundo.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que essa postura talvez seja mais dif\u00edcil de desenvolver. Frequentemente vemos um filme com tudo o que nos formou, com nossa hist\u00f3ria de vida, com nossas ideias e nossas certezas. O olhar j\u00e1 chega emoldurado. Ficamos acostumados \u2013 e recentemente mal-acostumados \u2013 porque nossos olhos t\u00eam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o uma quantidade tremenda de produ\u00e7\u00f5es. E com tanta coisa pra ver, porque ver o que todo mundo j\u00e1 considerou de antem\u00e3o como ruim?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum eu comentar com amigos sobre algum filme nacional e ele j\u00e1 ser previamente categorizado como desinteressante: porque o ritmo \u00e9 outro, porque a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 barata, porque a atua\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente, porque \u00e9 dublado. Claro, o cinema tem muito de t\u00e9cnica, e nos acostumamos facilmente com a evolu\u00e7\u00e3o dessa t\u00e9cnica. Ficamos acostumados e exigentes. O problema \u00e9 quando o costume, os dogmas, as hierarquias culturais nos impedem de ter outras experi\u00eancias de olhar. E eu acho que a pornochanchada, para al\u00e9m da superf\u00edcie, pode ter muita coisa a dizer. Mas a\u00ed j\u00e1 \u00e9 a vez de voc\u00eas descobrirem!<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/4.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"400\" class=\"aligncenter size-full wp-image-1307\" srcset=\"https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/4.jpg 800w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/4-400x200.jpg 400w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/4-300x150.jpg 300w, https:\/\/www.ediyporn.com\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/4-768x384.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p><strong>Cena 6: Convite ao prazer<\/strong><\/p>\n<p>FADE OUT. CR\u00c9DITOS<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Filmes para se divertir ou para ver a \u201cpornochanchada\u201d (e os limites do termo) com outros olhos. (Obviamente, que entrego aqui os que est\u00e3o entre meus preferidos).<\/p>\n<p><strong>A dif\u00edcil vida f\u00e1cil<\/strong> (Jece Valad\u00e3o\/Alberto Pieralisi, 1972)<br \/>\nMulheres dan\u00e7am em aqu\u00e1rio numa boate \u2013 e Emiliano Queiroz rouba a cena. Deliciosamente clich\u00ea.<\/p>\n<p><strong>Essa gostosa brincadeira a dois<\/strong> (Victor di Mello, 1974)<br \/>\nUma com\u00e9dia rom\u00e2ntica com participa\u00e7\u00e3o de Vera Fischer (Meg Ryan invejaria).<\/p>\n<p><strong>Excita\u00e7\u00e3o<\/strong> (Jean Garret, 1976)<br \/>\nTerror com umas das melhores sequencias iniciais do nosso cinema.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/revistageni.org\/12\/republica-de-assassinos\/\">Rep\u00fablica dos Assassinos<\/a><\/strong> (Miguel Faria Jr., 1979)<br \/>\nEsquadr\u00e3o da morte, Sandra Br\u00e9a cantando e o melhor beijo gay do cinema brasileiro.<\/p>\n<p><strong>Os Imorais<\/strong> (Geraldo Vietri, 1979)<br \/>\nVietri escrevia novelas das sete na TV Tupi, mas aqui resolveu contar uma hist\u00f3ria gay que n\u00e3o teria lugar na televis\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Giselle<\/strong> (Victor di Mello, 1980)<br \/>\nO suprassumo da liberdade sexual? Fazer a fam\u00edlia inteira.<\/p>\n<p><strong>Mulher objeto<\/strong> (Silvio de Abreu, 1980)<br \/>\nMelhor filme de Helena Ramos, a musa da pornochanchada brasileira.<\/p>\n<p><strong>A mulher que inventou o amor<\/strong> (Jean Garret, 1980)<br \/>\nCom Aldine Muller e roteiro de Jo\u00e3o Silv\u00e9rio Trevisan http:\/\/revistageni.org\/09\/acao-direta\/. Sem mais.<\/p>\n<p><strong><a href=\"http:\/\/estranhoencontro.blogspot.com\/2008\/08\/liliam-suja.html\">Liliam, a suja<\/a><\/strong> (Ant\u00f4nio Meliande, 1981)<br \/>\nUm filme que se o Tarantino conhecesse, adoraria refilmar.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.dailymotion.com\/video\/x2cw6nv\">Rio Babil\u00f4nia<\/a><\/strong> (Neville D\u2019Almeida, 1982)<br \/>\nCl\u00e1ssico que passava sempre com cortes na TV. Cena inesquec\u00edvel: o m\u00e9nage a trois na piscina.<\/p>\n<p><strong><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=8snmJv-tE7s&#038;ab_channel=amigomasso\">Beijo na boca<\/a><\/strong> (Paulo S\u00e9rgio de Almeida, 1982)<br \/>\nBaseado no \u201ccaso Lou\u201d, tem participa\u00e7\u00e3o de nossa diva <a href=\"http:\/\/revistageni.org\/06\/diva-que-incomoda-claudia-celeste\/\">Claudia Celeste<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Onda Nova<\/strong> (Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Garcia e \u00cdcaro Martins, 1983)<br \/>\nCinefilia, futebol feminino, masculino versus feminino, e muito sexo nessa pornochanchada cult.<\/p>\n<p><strong>A<a href=\"https:\/\/revistageni.org\/08\/amor-maldito\/\">mor maldito<\/a><\/strong> (Ad\u00e9lia Sampaio, 1984)<br \/>\nNosso primeiro filme l\u00e9sbico nacional, justamente sobre a lesbofobia.<\/p>","protected":false},"featured_media":1309,"template":"","tags":[85],"class_list":["post-1297","posts_diversos","type-posts_diversos","status-publish","has-post-thumbnail","hentry","tag-texto"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos\/1297","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts_diversos"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/posts_diversos"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1297"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ediyporn.com\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1297"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}